terça-feira, 22 de abril de 2014

Estranha paixão

Tenho longas conversas com o silêncio
A solidão senta-se à mesa também
Questiono os dois e mais me convenço
Sou ave liberta que não é de ninguém

Nestas conversas o monólogo impera
Ambos anuem e me dizem que sim
Serei eu que a sorte governa
Ou serás tu que assim te convém

Maldita palavra faca que corta
Que se crava no peito com tal precisão
Derruba a sombra que me bate à porta
E trás ao papel a estranha paixão

Que nutro nas horas sem sinal de vida
Nada acontece no leito vazio
Apenas a luta renhida

Comigo mesma por dias a fio. 


quinta-feira, 17 de abril de 2014

Sentir...

Nas horas em que a saudade aperta
Digo o teu nome baixinho
Questiono a vida e as curvas do caminho
Olho o céu azul, lá no alto o teu rosto
Estico a mão, quero sentir
Os teus lábios a sorrir
A distância é enorme, e o infinito desdenha
Na minha mão o vazio
Coloco olhos ao chão, a mão rente ao corpo
Caminho mesmo cansada
E o vento me traz num sopro
O eco da tua voz, chama por mim em surdina
Assim dou por mim a sorrir
Pois quem não sabe sentir

Na vida vegeta e lastima.


quarta-feira, 16 de abril de 2014

Diga-me

 Diga-me lá você que me lê
Em tantos dias, em tantas horas
De alegria ou solidão
Vem até mim e lê

O que me sai em delírio
O que atiro em declínio
Ou então elevo ao alto
Com espalhafato
Diga-me lá, preciso saber
Tenho a mente desarrumada
Ao escrever
Ou é retórica de alma penada.

Que deixa que a vida lhe fuja apressada.



Palavra...

A palavra é uma arma
Disseram um dia
Entra desvairada
Pela mente vazia

De todas as palavras que atiro
Ao teu cérebro fechado
Deixo nelas o gosto
Do teu pecado (imaculado)

Na minha leviandade
Vivo a tua cegueira
A tua falta de coragem
Em pular a ribanceira

Tal meretriz
Sonho, serei feliz
Claro, trago ao papel
A tua pele

E agora alguém me diz
Qual o preço a pagar
Pelo o diz ou não diz

De versos saber moldar.


Tambor...

O amor que transporto
É muito meu
Nem sequer lamento
Que não seja o teu

Essa falsa certeza
De que o poeta
É infeliz
Veio na correnteza
De olhar petiz

Florbela que foi musa
Infeliz no seu viver
Claro, foi intrusa
No modo de pensar

Outras como ela
Que vieram a seguir
Abriram a janela
Para eu intervir

Hoje sou feliz
Tal como eu muitas mais
Mulheres que o mundo diz
Enquanto tu vens espreitar

Pela calada, corroída
Num lamaçal de vaidade
Olha vai moer o juízo
A quem não te fala verdade.

Porque escrever de raiva ou amor
Nos tempos que vão correndo
É banal, virou tambor

Enquanto vais remoendo…


Poeta de estrada...

Em tudo o que digo, intento
Desmembro, atiro areia para os olhos
Em altos gemidos
Outras, arrepio caminho

Foi Deus que me deu o condão
De escrever
Cabe a ti a interpretação
Ao ler

Coitados dos burros
Se fossem só ``burros``
Felizes dos espertos
Se não fossem incertos
Bem-aventurados os loucos
Dormem tranquilos
Malfadados os coitadinhos
Tem falta de coragem

Como vês escrevo
Com uma leviandade muito minha
Com vaidade e arrogância
Com carinho e muita dor
De merda, até de flor
Escrevo de olhos fechados

O que desconheces é que falo de ti
Ao escrever de mim
Que falo do medo
Que eu não tenho
Falo de pobres e dos ricos

Aos pobres levo esperança
Aos pindéricos dou a facada
Ou não fosse eu poeta de estrada

Aquela, que corta este país
Onde homens e mulheres
Escrevem o que te desdiz.

E no amanhã, outro que não tu interpreta
Enquanto tu passaste… tão SÓ…