quarta-feira, 7 de maio de 2014

Na hora de debandar...

De que servem palavras bonitas
Visitas a qualquer hora
Se às vezes são meras fitas
Na hora de ir embora.

Penso comigo afinal
Se um pai cuidou e amou
Porque o seu tempo acabou
Numa cama de hospital

Ou num qualquer abrigo
Que o dinheiro pode pagar
Quem se preocupou consigo
Na hora de debandar

Em busca da ligeireza
Da vida fácil que impera
Viveu um pai a grandeza
Para ser esquecido, quem era!!!

Quanto ditoso é
O que cuida dos seus
Assim se mede quem é
Nas dores que então venceu.


terça-feira, 6 de maio de 2014

Porque perco tempo...

Porque passa o vento sem olhar p`ra trás
E me deixa estendida no chão
Porque passa o sol que agora faz
Para logo mais se afastar o verão

Porque passo eu, mesmo sem passar
E a vida corre eterno lamentar
Porque passa o dia se a noite se achega
Nas rugas do rosto que renega entrega

Porque passas tu meu amor vindouro
Se logo mais não sabes quem sou
Porque passa o sonho efémero tesouro
Se amanhã sou o que restou

Porque passa tudo que fica afinal
Na linha da vida uma mão fechada
Porque perco tempo com o que está mal
Se o tempo matreiro corre em debandada.


De tudo o que tenho...

Descobri que em tudo o que tenho
Tudo me falta afinal
Resta um simples lenho
Que me colhe no pantanal.

Não espero palavras de amor que não ouço
Penso numa palavra amiga ao caminhar na rua
Um sorriso no rosto, um bom dia apresado
O calor do sol, esse é meu aliado.
Não espero gestos altivos
Na ganancia ocorre a míngua
Preciso de cantigas ligeiras
Para pesada me basto
De empurrão na ladeira
Ou ombro p`ra chorar a mágoa.

De ter nascido descrente
E desdita também
Ter na ponta dos dedos semente
Que às vezes bem pouco convém.

Descobri que em tudo o que tenho
Afinal bem pouco me basto
E no amontoado lenho

Vê bem até nasce pasto…


Deixem correr o poema...

O poema pode ser doce
brilhante, insidioso ou asqueroso.
Deve ser arrogante.

De uma presunção maliciosa 
ferir o olhar
alterar o coração
apaziguar e odiar.
Deve ser interrogação.

O poema deve ser fronteira
que se escancara par a par
nunca por nunca ser, barreira.
Entrave ao despertar.

O poema
um rio inquieto
a trespassar o mundo
nas mãos a paz,
sorte, mentira ou verdade.
Uma mulher nua
um homem em êxtase
uma criança que corre.
Um cão, vadio e amigo.

O poema é sangue nas veias
o voo de condor
é mente que esperneia
com amor ou com rancor. 

De que servem letras belas
se o recheio for oco
soltem versos nas vielas,
deixem correr as rimas.
Por entre ratos, vadios
e prostitutas, por entre
Igrejas e santos.
E mentes loucas.
Por entre gente comum.

Deixem correr o poema
é de todos e nenhum
silaba a silaba, fonema
escavado num trinta e um.


O resto, o resto até faz pena.


O vento a chamar...

Não sei de ti há tanto
Da sorte nada sei também
Nem desdém e no entanto
Sei que sou ninguém

Sei do campo a perder de vista
Das flores num manto belo
Até das cegonhas no alto
Eu sei, mas nada sei de ti
E no entanto sei que vi

Além no céu azul
Uma nuvem passou ligeira
Trouxe a até mim
O queixume
Vê bem. Rama de oliveira
Onde poisa o Melro
E até o Gaio
Onde poisa a sorte
Num botão em flor
Onde poisa o olhar
Quando quer chorar
Nada sei de ti
O vento a chamar.



segunda-feira, 5 de maio de 2014

Sombra...


Porque se foi o nada, se nada era
Ao meu lado deixou a sombra
Essência deslavada
Pelo fantasma dos sonhos

Olho as andorinhas que dançam,
Dançam e chilreiam
E nada me ocorre

Certamente que morri
Uma parte de mim, morreu
Camafeu infernizado, o eu
Que me tolhe na cegueira
Do que foi

Estranha apatia a desta hora
Palavras cruas e ocas
Resgatam as lembranças
Que não quero
Os sorrisos que não tive
Num tempo que não foi

Respiro aliviada
E as andorinhas respiram comigo
Afinal esta hora assombrada
Não passou disso mesmo
Uma sombra desvairada
Que me entrou pelo postigo.




domingo, 4 de maio de 2014

Acto de parir


Devia dizer
O que os olhos querem ver
Meto a mão ao coração
Que aflição
Despi-me de palavras belas
Que fiz delas

Se o dia fosse terno
Mas em volta desespero
Mulheres de olhos no chão
Ao trambolhão
Penso comigo porquê
Porquê…

Até o acto de parir
Distinto no destino
Grosso modo o sorrir
Se perde o cretino.