segunda-feira, 19 de maio de 2014

Tudo passa

Num ponto ao sul intento o teu rosto
Desenhado no barro a tinta-da-china
Mas a sorte trocada… e no mês de agosto
O barro vermelho morre de míngua

Nesta saudade sem cor e sem gosto
Dou por mim a indagar o céu que me olha
Parece dizer que o ponto é o oposto
Ao meu querer que agora desfolha

Um rosário sem fim… mas que recordação
Que me atira por terra… é só encontrão
Se dissipa num ai sem prever o clamor

Que se solta do peito corre campo fora
Retorna no eco que ao meu ser aflora
Tudo passa apressado… mas porquê o amor!



quarta-feira, 14 de maio de 2014

Se morrer logo mais...

 Se morrer logo mais que seja em campo aberto
Como amparo um tronco de sobreiro
Que me aqueça o calor da terra, e o vento suão
Leve a minha alma e a espalhe num campo de trigo

Porque na vida fui joio, tenho nas mãos a enxada
Que dilacerou a minha silhueta, fez dela gato-sapato
Por vezes deixou-me estendida numa valeta
Tendo por companhia arame farpado

Se morrer logo mais, quero os calos das mãos
A velarem por mim, e de mortalha papoilas
Quero que me chore um velho irmão
Que tal como eu fez da terra o pão.



terça-feira, 13 de maio de 2014

Oração...

Minha Nossa Senhora
Meu Rosário de luz
Traz amor e ventura
A quem te procura
Traz um pouco de paz
De sorte também
Amolece os corações
Os olhares sem destino
Transporta no peito
Qualquer menino
A todas as mães
Dá-lhe uma força sábia
E a todos os pais
Um coração grandioso

Te rogo Senhora
Por todos nós 
A treze de Maio
Que um dia vieste
Trazer a paz

No branco da veste.

Adeus…   Quadras soltas.

De todos os amores que sonhei
Tu foste o mais completo
Foste também, eu sei
O mais vil e gaiato.

Se pensas que mágoa tenho
Reduto de dor sem fim
Enganas-te, agradeço o lenho
Que desviaste por mim.

Serei doida o suficiente
Para amar perdidamente
Para deixar partir e rir
De ti tão pouco exigente.

Às vezes escrevo assim
Rima solta na gandaia
Sempre que dou por mim
Numa hora de alegria.

Então o dia tem mais graça
O sol aquece em dobro
Rio por mais que faça
Mesmo que não tenha ombro.

Os poetas, ser esquisito
Que ao mundo levam rima
Mesmo em verso fraquito
Elevam a auto-estima.

E eu pequena e fútil
Às vezes de mau humor
Outras com certo rancor
Escrevo tanto de inútil…

Escrevo para ti e tu sabes
Sempre que o faço a preceito
As minhas palavras são traves
Que te embatem no peito.

É essa a minha vitória
Sobre a ida, fraca esmola
Sobra-me sempre a glória
De um coelho na cartola.

E para tua arrelia
Que te vês assim retratado
Para que quiseste folia
Comigo, um ser retardado…

Que enlouquece na escrita
Sou solta de alma vadia
Olha, resta a marmita
Cheia de nadas… azia.

Começo a ficar cansada
Vou parar e ir embora
Vou meter o pé na estrada
Porque o dia não demora.

Nem tampouco aquece o sol
A quem se perde na estada
Vou-me embrenhar no rol
Desta vida destravada.

E um conselho te dou
A ti que me olhas louca
Desta vida só levou
Quem se satisfaz com pouca.

Sorte. Mas que é isso afinal
A sorte fazemos nós
Nem só o vendaval
No moinho roda as Mós.

Podia ficar aqui
Até à eternidade
A rimar sobre o que vi
Nos teus olhos, que vaidade.

Esta para meu castigo
Tudo faço sem cansaço
Ai, reboliço mais esquisito
Esta escrita, desembaraço.

Tem a língua afiada
Diz sandice, ou talvez não
Hoje estou inspirada
Nas rimas ao trambolhão.

Precisava ter eu sei
Quem comigo ao despique
Aí, ias ver a grei
Rebolando em trambique

Vou-me mesmo, tem que ser
O Pulga gane aflito
Porque isto de cão ser
Também merece um passeiozito

Adeus, até ao meu regresso
Comecei a falar de dor
De amores e certo reverso
Termino a prosa com cor.








domingo, 11 de maio de 2014

Sem alarde...

Se viesse o meu amor por entre a tarde
E trouxesse nas mãos um sonho antigo
Eu juro, ficaria quieta, sem alarde
Não saísse o encanto pelo postigo

É que o tempo das cerejas é covarde
Ao meu peito trás a sombra em castigo
Assim que o coração se aventura e arde
Num terreiro em que busca um abrigo

Mas quem sabe troque as voltas em viés
Às trevas que circundam de antemão
E trespasse esta sina de lés a lés

E o tempo das cerejas então zele
Em cofre rubro o meu gasto coração.
Para que então nas cerejas o meu mel…


Pigmeu...

Porque me chama a ilusão que arde
Em fogueira de aflição, porquê eu…
Que transporto no peito fútil trave
Que consome em sinistro apogeu.

As lembranças ressequidas em alarde.
Às vezes vislumbro um alegre pigmeu!
Quase sempre ao final da tarde
Caricato… olho e ele desapareceu,

E então no meio do nada é que descobre
Que a quimera vive paredes meias
Corre veloz nem o vendaval encobre.

Esta força que a planície trás átona
Espalhadas pelos campos alegrias.
Pigmeu, não passas de mente brincalhona!




quarta-feira, 7 de maio de 2014

Posse...

A ostentação ridícula da posse
Deturpa a realidade, é fria e leviana
Produto de insuficiência insana
Falha a certeza, pelo correr da água
No rio.

Desagua sempre no mar, tal amor
Produto da alma, vadia e incontrolável
De que serve um sopro inerte, impenetrável
De que serve, se a mente galga fronteiras
Sem pudor.

A ostentação ridícula da posse
Retira a paz, o brio, até o que não se tem
Tudo o que o homem precisa
É de fechar os olhos

E acontece o sonho.