quinta-feira, 19 de junho de 2014

Recantos...

Por entre os muros de verde pranto
A letargia do fim de tarde, dolente…
Esvai-se aos poucos, e já o sol escaldante
Dá lugar à noite em seu fresco manto.

Intuo as sombras em cada recanto…
Pressinto serena o tempo presente
Até quem diria uma estrela cadente
Se junta a mim, sublime momento!

Quem dera a vida de verde bordada
Rebeldia ao sonhar com o infinito…
Bordo assim na minha alma cansada,

A ponto de cruz instante bonito.
Quem sabe o verde traga a madrugada
E logo a seguir reprima o meu grito.


terça-feira, 17 de junho de 2014

Vidas...

Pé ante pé palmilho as pedras
Tropeço na amargura
Aqui e além rugem as feras
Saem gritos pelas fissuras.

O porquê da morte, ou do mau quinhão
Eu não aceito e digo não.
De que vale a frustração
Se não posso pegar-te ao colo…
Se não posso tratar das feridas
Das feições angustiadas.
De que serve a frustração
Se pelo mundo vidas curvadas…

Foto de Alfredo Cunha.


Cadeira...

É tão deslavado e irrisório
O momento passageiro
Tudo é transitório
Infantil ou traiçoeiro.

Que levamos nós desta vida
Perguntei às pedras da rua
Somente ilusão se é fingida
Se o tempo é de corrida
Resposta nua e crua!

Por isso me sento amiúde
Numa cadeira de costas rotas
Não tem braços, não tem fundo
Mesmo assim pode comigo
Nem sequer o tempo ilude
Esta cadeira singela
Está defronte à janela
Do mundo, contemplação…
Até ponto de interrogação
São os pregos que a sustêm
Nesta era de aflição
Permaneço dias a fio
Nesta cadeira invisível
Que me ampara pela vida.
Perguntei às pedras da rua
Como vim aqui parar
Desconhecem a resposta
De na cadeira me sentar.





Então...

Não sei,
Porque me chega o eco dos fantasmas
Jogados em valeta de ambição
Porque teimo em recordar tempos passados
Remoinhos nos meus cabelos grisalhos
Ou então,
As velas de uma Nau Catrineta
Incerteza impávida mas serena.
Onde já ouvi esta cantilena.

Não sei,
Por entre este céu encoberto
Se olho de frente o passado
E o presente…
O futuro que promete?

Não sei,
Nos passos do velho
Aos meus olhos tão desfeito,
No voo dos pássaros
Nas suas asas, certeza.
Ao olhar o menino
Que me olha iludido.
Não sei.

Se faço bem em ser curiosa
Se roubo tempo ao tempo
Porém sei que sou desenvolta
Que escrevo pregos e rosas
Com facilidade vaidosa.

Então, que não sabes tu afinal.






terça-feira, 10 de junho de 2014

Corrupio...

Foge de mim a vontade de sorrir
Nas vezes comigo a sós
Pergunto ao branco das paredes
O que está por vir?
Vazios na resposta restam os choros
Do caliço aos meus pés!

Estranha admiração em corrupio
Comigo por dias a fio
O porquê da solidão, do encontrão.
Repreendo nessas horas alguma lágrima
Sei que não queres o meu pranto
Ou penso saber…

Curiosa a certeza, até clamor
Aventurança anunciada numa esperança fugidia
Certeza absoluta no branco das paredes, a razia.

Foge de mim a vontade de sorrir
Num silêncio que molesta, agride e corrói

Quebrado inutilmente por tudo aquilo que destrói.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Décimas… Os pombos na praça...

Felizes os pombos na praça
Numa dança sem igual
Cheios de vida e de graça
Alheios a vendaval.

Voa, voa, pombo belo
De um cinzento tão brilhante
Teu olhar é cativante
Ar sereno e singelo
Voa, voa, pombo belo
Leva nas asas plangor
Que trago no meio da dor
De um povo de rosto amargo.
Voando soltos no largo
Felizes dos pombos na praça.

Alegria das crianças
Em alegre brincadeira
Alheias a canseira
Descomplicam as andanças
Ensaiando contradanças
Querem os pombos tocar.
Nesse baile vem entrar
Com elas de riso solto
Passo certo desenvolto
Numa dança sem igual.

Volta ao tempo da romã
Das nozes e das amêndoas
Aos cortiços das abelhas
À pesca do achigã
À capa de fofa lã.
Com os pombos e as crianças
Entra já, sem reticências
Com vontade leve e sã
Os pombos pela manhã
Cheios de vida e de graça.

Voam em círculo fechado
Outras vezes mais aberto
Junto às nuvens ou mais perto
Sobrevoam o telhado.
Fico de olhar abismado
Pelo voo engalanado
Pelo riso adocicado
De sangue novo na guelra.
À solidão fazem guerra
Alheios a vendaval.