quinta-feira, 26 de junho de 2014

Cantiga...

Aquém das sombras que circundam a praça
Tudo tranquilo no final de tarde
Só o pensamento se atreve em barcaça
Mas regressa ao braseiro que no peito arde

Quietude que inspira o momento
Só o silêncio é mau conselheiro
Quando dou por ele envolto em fumaça
Moinha tingida de vermelho rubro
De vestes vistosas tem a sua graça
Quando dou por ele, logo lhe descubro

Pedaços de sina, em cristal luzente
O atrevido o meu ser presente
No final de tarde ao olhar o céu
Juro que descobri isolado ilhéu
Se pegar no riso que será que faço
Ora, pego-lhe na mão sem grande embaraço
Se pegar no céu e o juntar ao sol
Faço uma cantiga, seu olhar farol.



terça-feira, 24 de junho de 2014

E aí...

Ele é o pensamento que perde a noção do tempo
É o vento que uiva por entre a frincha da janela entreaberta
É a vontade na minha pele que incita à descoberta
Não fosse a chuva nos cabelos brancos, as rugas do rosto
E quem sabe o sol levasse o pranto por um campo de trigo.

E aí, na ceara madura o oiro da gente
O suor que gerou na terra negra, rebento
Fosse a esteira da minha alma
E aí, a vontade de ir além não ruísse simplesmente.

Ele são coisas e coisas, minha alma de poeta
Quem sabe a entenda uma costela de outrora
E aí, na madrugada em flor desperte botão de rosa
De um branco tão branco, brancura leitosa
De um rosto de donzela encantada

Que distingo no pensamento sempre que se cala o vento
O que resta afinal de um conto de encantar
O que resta nos meus olhos quando me apetece cantar
Ao lembrar o teu rosto, o teu olhar

Nada e tudo por entre linhas sem rumo
Assim começo um novo poema
Será que ao longe o futuro
Traz até mim o teu sonho, fonema.

Ele são coisas e coisas, nesta escrita vadia
São tranças que desfaço amiúde
São os teus olhos a rirem de mim
Neste jeito catraio de dizer que sim
Ele são coisas e coisas no branco do mármore
Até a chuva se juntou agora
E aí, o dia segue seu curso em busca da aurora.




Vila Viçosa...

O porquê da chuva em pleno Junho
Do frio que não vai embora.
O porquê de estar, como sinto agora
Mesmo com nuvens o sereno assoma
Desfaz em partículas uma redoma de aço
A que visto para o dia, em cada gesto, cada passo.

O testemunho das nuvens que vão passando
Escrevem no céu cinzento em letra miudinha
Uma mensagem legível
Nas linhas bordadas a vento posso ler uma adivinha
Uma canção de amor, aprazível.
As malandras das andorinhas que chilreiam em barafunda
Juntam-se às nuvens e trespassam os telhados,
Vila Viçosa branquinha, reino de sonhos engalanados.
O sereno das calçadas, dos rostos de gente simples,
Faz desta terra o seio de outras eras e reinados.
E eu questiono o porquê da chuva em pleno Junho
Pobre tola que me perco em escaparate irrisório
Nem percebo que a paz no vermelho dos telhados.
É sinal de que a vida mesmo que seja enguiçada
É para ser vivida, ser pesada e medida
Ao nascer o traçado, o que é nosso está guardado
E que o vento ao escrever, simplesmente quer dizer
Alentejo nosso fado.





sábado, 21 de junho de 2014

Para quê...

No frio do silêncio pelo chão um rosário
Onde as sombras tremem por entre vaga-lume.
Peço às nuvens que me tragam perfume
Embevecido pelo tempo solitário.

Mas tudo é rebeldia, ou então imaginário!
Penso e repenso será que amanhece.
Aos meus pés repousam folhas sem flor,
Será que fui rainha virada ao contrário

Envolta em estranho manto assim me sinto.
Censuro apatia, o meu sonho por mortalha,
De rainha a pedinte por entre um labirinto.

De folhas mortas, entre elas a fornalha
Onde incendeio anoso anseio extinto.
Para quê a coroa, sempre perco na batalha!





quinta-feira, 19 de junho de 2014

Noite...

Se eu correr por entre a madrugada
E levar no peito um sonho altivo
Será que o momento fica cativo
Por entre a alma mesmo cansada

Será que por fim se alarga a estrada
Ao virar da curva encontro motivo
P`ra gritar bem alto que bom é estar vivo
Repelir Inverno de uma assentada

Sinto nos meus ombros uma estranha cruz
As costas doridas, alma deslavada
Dizem que nem tudo o que é oiro luz

Mas antes luzente… noite iluminada.
Do que na penumbra, porque ela traduz
Uma sombra incerta, algo inacabada.



Recantos...

Por entre os muros de verde pranto
A letargia do fim de tarde, dolente…
Esvai-se aos poucos, e já o sol escaldante
Dá lugar à noite em seu fresco manto.

Intuo as sombras em cada recanto…
Pressinto serena o tempo presente
Até quem diria uma estrela cadente
Se junta a mim, sublime momento!

Quem dera a vida de verde bordada
Rebeldia ao sonhar com o infinito…
Bordo assim na minha alma cansada,

A ponto de cruz instante bonito.
Quem sabe o verde traga a madrugada
E logo a seguir reprima o meu grito.


terça-feira, 17 de junho de 2014

Vidas...

Pé ante pé palmilho as pedras
Tropeço na amargura
Aqui e além rugem as feras
Saem gritos pelas fissuras.

O porquê da morte, ou do mau quinhão
Eu não aceito e digo não.
De que vale a frustração
Se não posso pegar-te ao colo…
Se não posso tratar das feridas
Das feições angustiadas.
De que serve a frustração
Se pelo mundo vidas curvadas…

Foto de Alfredo Cunha.