terça-feira, 7 de outubro de 2014

Surpresa…

Se trazes ao meu peito o aroma do jasmim
Num sopro de uma manhã a despontar,
Ou então o suave murmurar
Da água que corre pelo campo em festim…

Se no fundo dos teus olhos vêem crateras,
A imensidão de um deserto ao luar.
Atreve-te nessa força a desbravar
Enfim, traz o desconhecido e sacia a almas…

A minha e a tua, só assim encaro o veredicto,
Ao entrar pela janela entreaberta.
Estranha noite de luar onde o grito
Que cortava o coração caiu por terra!

Trazes o infinito, será que vem para ficar  
Ou apazigua um coração impaciente.
Ânsia tresloucada, surpresa ao encontrar
Nos teus olhos um sereno convincente.




sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Perversa

Porque me chega no murmurar das folhas,
Na candura de uma tarde de Outono,
O eco frio das algemas, de uma alma sem asas.
E por entre o cair da noite um rumor a abandono?

E nesse instante as folhas amontoadas
Aos meus pés gritam em coro. O seu a seu dono…
Finjo, simplesmente finjo… São águas passadas,
Telhados de vidro de um rei sem trono.

Como eu queria ser formiga… perversa
É a mente com desejos amontoados.
Tudo porque na vida os sonhos são adiados.

Perversa é sorte de um Outono sem chuva.
Perverso o rumor que me serve como luva,
Enfiada das avessas de dedos esburacados…







quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Do outro lado...

Se eu agora falasse de amor
Diria o teu rosto,
Numa cantiga vadia o teu gosto
Não ignorava as tuas mãos,
Areias movediças no meu colo.
Traria ao papel os teus lábios
Sob a nudez do meu seio.
E nas linhas o rodopio do sentir.

Se agora falasse de amor
Empurrava o tempo,
Noite dentro, dia claro.
Nas janelas ante abertas
Da alma cansada.
Dos teus medos… meu anseio
De mulher… sobretudo falava de brisa,
Ligeira, como ligeira é a sorte,
Ali, do outro lado do tempo!

Pé ante Pé...

Recuso as pedras da rua
Unidas entre si pela terra fértil.
Ignoro a lágrima brotada
Sob os pés que pisam a calçada.
Estéril a minha crença!
Por ventura desconheço
Esperança.

No cair da tarde, maruja memória
Logo de manhã, indiferente a estória,
Enquanto vasculho o alheio ausente…
Tenho nas mãos o presente
No sol que me sorri.
Ele ali vai…

Um pé adiante, outro atrás
Afugenta cansaço,
Sem desembaraço.
No rosto Alentejo
Nas mãos saudade,
Sei que olvido liberdade…

No tampo da mesa repousa a chávena,
De um café negro,
Nas pedras da rua passa alheia
Uma brisa ligeira,
Pé ante pé empurra a morte
Numa pasteleira.



terça-feira, 23 de setembro de 2014

Tal como eu...

Por vezes olho as rugas no rosto
De frente para o espelho sincero.
Olho e sei que sou eu.
Aquela que no mês de Maio aprendeu
O cantar liberdade,  
Com as mãos em sangue
Pelos sargaços em flor.
Nas encostas da serra e com as giestas
Aprendeu solidão.
Ali ao lado os velhos, quinhão irmão
Do peito em chaga.
Defraudamos melodias em voz desafinada!
Em todos os timbres uma pomba liberta,
E no refrão um punhado de gente
Que tal como eu aprendeu Abril.




quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Traço...

A vida entrega espinhos aos Poetas
Quem disser o contrário é porque mente.
São marioneta mais ou menos consciente
Vejam bem, até podem ser estafetas.

Podem gritar amor ao afundar em rancor.
Dançar ao luar com vontade de chorar,
São fuinhas, trapaceiros no ringue a deslizar.
Levam às letras o peito em dor…

É ver os de outrora, com eles aprender,
O que é ser poeta…
Com Camões o mundo a desbravar,
Com Florbela o despeito no amar…
Com Bocage escárnio e maldizer,
Mas também sonetos de morrer.
Com Pessoa, o pai do realismo,
Em tantas caras sem grande fatalismo.
E a Cecília, de palavras ternas,
Às vezes adagas com asas.
Tenho que falar de Aleixo,
Poesia em pau de Freixo…
Despida de salamaleques!
Maria Alberta Meneres, criança equilibrada.
E de António Gedeão em Lágrimas de Preta.
Mas incute-me esta raiva a falar de Ary
´´ Malabarista, Cabrão, Poeta Castrado Não.``

Como vêem é fácil falar de poesia.
É deserto e ventania!
Ou então criança na rua despida.
Mendigo, gaiato, corcunda!
Desde que não seja surda, nem muda.
´´Ser poeta é ser mais alto como quem beija``
É ser autêntico, e sobretudo,
No traço adivinhar o seu cunho…




Ao ler...

Louca varrida, fúria desenfreada
Força da natureza em nenhures,
Perdida no vento aleada, ou enleada
Em quimeras, senhora dos meus crimes.

Tudo isto, eu sou… e posso ser madrugada!
Geada branquinha no pasto, dando ares
A serraria, ou então moira encantada.
Posso ainda ser o montado e suas cores.

Serei tudo o que quiseres, a teu prazer.
Minha pena é matreira, traiçoeira,
Outras vezes é mulher e o sofrer.

Pode também ser amor a acontecer.
Pode ser raiva, despeito, até verdadeira!
Será tudo o que quiseres ao ler…