quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Se...

Se na falta de um abraço o mundo ruísse.
Se as trevas tomassem de assalto a vida.
Se tudo o que dói, enfim desistisse.
Se a noite e o dia fossem de vencida…

Perdida no espaço quem sabe existisse,
Uma torre de marfim torta e carcomida
Pela embriagues, e num cálice diluísse
A dor que no peito, teimosa habita…

Se, se… São tantos os (SES) que atormentam o dia.
Imensos queixumes da alma em chaga.
São tantas as iras que vacilam num areal.

Se a minha torre de marfim no agora ruísse,
E o topo do mundo aos meus pés se abrisse,
Quem sabe se o (SE) dançava num arraial…



terça-feira, 28 de outubro de 2014

Quem sabe...

Traz ao âmago o desejo inacabado,
de  um abraço apertado.
 E quem sabe o céu escureça de pudor…
Traz sentido numa frase incompleta,
 medula do sentir olvidada no fonema,
Onde a palavra amor repouse…
Atreve-te por entre a bruma das certezas
a incentivar felicidade,
E quem sabe durmas tranquilo…


Rapina...

De todos os poemas tramados.
Que solto no vento que uiva…
Uns são restolho pisado!
Outros, trincheira escancarada!...
Alguns: são merda gerada!
Por isso: descreio galanteio.

Ou não fosse a minha vaidade.
Mastro que ergo onde quero.
Melomania do meu ego.
Passos dobrados a preceito.

De todos os poemas tramados,
que solto numa valeta.
São gente da terra, suada.
São brio e tramóia…
Dores de partos… gerados…
Numa odisseia sem estória!
Acima de tudo brocados.
Orgulhosamente roubados.

Ao meu coração… que chora.



sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Arraial...

Elevei aos píncaros num dia de temporal
O desatino que é sonhar, corri, saltei,
E dei por mim estendida num areal.
Ali fiquei, morri ou só imaginei…

Que o tecto do mundo é efémero arraial.
Tudo passa ligeiro, ou só inventei
As certezas bizarras, estranho carnaval!
Que faço eu numa arena sem lei…  

E depois num dia qualquer. Pode ser de sol,
Darei por mim num campo de girassol.
Mas não sei do calor, não sei do sentir.

Que deixei lá atrás num atalho qualquer,
Só a saudade vem para me aborrecer.
Fria companheira na hora de dormir.



quarta-feira, 22 de outubro de 2014

A voz da consciência (Conto)…

- Preciso fazer alguma coisa para não enlouquecer. Olha a rua através dos vidros entreabertos, e repara numa cadeira de rodas que desliza vagarosa pelo passeio fronteiriço. O seu olhar podia prender-se no homem de meia-idade, sem pernas, que encontrou na cadeira o seu meio de locomoção. Não, jamais repararia no homem, afinal toda a sua existência foi comandada pelo ´´ter`` sempre mais e mais, nem que fosse o esqueleto que agora a atormenta!
  - Que queres tu, logo tu que encontrou na luxuria o meio de vida. A sua voz soou tranquila, uma tranquilidade aparente, o seu íntimo fervilhava de asco, digo bem asco, apesar de ser seu amigo sempre lhe criticou os devaneios, como se chamar devaneios a verdadeiras aberrações que normalmente colocavam a vida dela e daqueles que a rodeavam em causa, fosse normal, mas também, como se a normalidade fizesse sentido ao olhar o seu rosto enrugado.
  - Os retalhos da minha vida assemelham-se a marionetas, dançam tresloucada mente no meu passado. Por acaso isso é pecado? 
Ou é impressão, ou ele juraria que está prestes a chorar. Conhece-a desde criança e já nessa idade era difícil algo ou alguém arrematar-lhe uma lágrima.
  - Manipulaste tudo e todos em redor, foi assim uma vida inteira, recordo como se fosse hoje o dia em que encenaste a tua morte, tinhas quando muito vinte anos, nunca cheguei a saber onde foste buscar a morta.
  - Qual morta, mas quem é que morreu?
  - Esquece, afinal de que serve remoer recordações, e as que tenho contigo são os meus pecados. Mas podes chorar, vamos chora verás que não dói, ou melhor, quando se chora só a alma dói. Vira-lhe as costas há setenta e cinco anos que a olha de frente, mas está cansado, tão cansado que só lhe apetece dormir.
Ensaia a retirada mas por um breve instante fica indeciso, qual o caminho a escolher. Se subir os degraus tudo será fácil, mas a facilidade sempre foi o jogo dela, contudo se retorcer e sair pelos fundos, sabe que daqui em diante nada será igual, olha-a de soslaio. Pressentindo a sua indecisão ela ri a bandeiras despregadas, e a sua voz deixa transparecer o desprezo por tudo aquilo que lhe começa a ser sagrado.
 - Sempre foste um frouxo e sempre me deitastes as culpas. E como te disse preciso fazer alguma coisa para não enlouquecer. Olha novamente para a cadeira de rodas e finalmente repara no homem de meia-idade.
 - Chega aqui. Como que movido por um telecomando, ele aproxima-se da janela.
 - Reconhece-lo?
  -Sim, quando era novo tinha imensos sonhos.
  - Não me digas que a culpada fui eu.
  Agora é ele que começa a chorar, enquanto ela continua a rir e vai falando.
 - Soube-te bem as mordomias, a vassalagem com que te olhavam e obedeciam, acima de tudo soube-te bem o dinheiro. Ah o bendito dinheiro, também te soube bem sempre que mentias por mim, sempre que olhavas o mundo de um patamar mais elevado. Olha para ele não passa de um pobre coitado.
 - Cala-te para sempre. Grita e dá três passos atras saindo pela porta dos fundos.
É de manhã quando abre os olhos, não, a claridade vem da lâmpada que pende sobre a sua cabeça, atarantado olha em redor, tudo lhe é estranho, estranha sobretudo a luz fria que ainda o vai cegar.
 - Está a acordar. Novamente uma voz de mulher. – Senhor Alberto, está a ouvir?
Abre e fecha a boca, mas nada de prenunciar palavra, como é possível se ainda há pouco falava a bandeiras despregadas.
 - Bem-vindo de volta senhor Alberto, sabe que dia é hoje, hoje é o primeiro dia do resto da sua vida. Assim o cumprimenta uma mulher simpática de bata branca.
Passaram cinco anos desde o terrível acidente que o atirou para uma cadeira de rodas, e hoje no dia em que faz cinquenta anos tem uma enorme esperança no futuro, a reviravolta que a sua vida sofreu fez-lhe ver que muito mais importante que estatuto, é ser-se feliz e contribuir para que os outros o sejam também. Com o acidente que quase o atirou para debaixo da terra soterrou hábitos obsoletos, passou a dar menos importância a bens materiais para se debruçar sobre os bens da alma. Finalmente pode dizer que é um homem realizado, e o caricato está na estranha conversa que teve com a sua consciência há cinco anos atrás. Dizem que esteve em morte cerebral, uma grande peta é o que é, como pode ter morrido se lembra tim-tim por tim-tim toda a conversa, e da escada que esteve prestes a subir. Só lamenta não poder falar dessa conversa com ninguém ou ainda corre o risco de lhe chamarem doido. Se quando ofereceu o casarão onde morava para fazerem um lar para os Sem Abrigo, e foi morar no pequeno apartamento de solteiro foi o que foi, imagina se tivesse contado a alguém que falara com a sua consciência enquanto esteve morto, e ainda por cima já tinha setenta e cinco anos!

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Isco…

Se é para chocar, vamos a isso…

Ontem na viela uma rameira perdida
Deu de caras com a má sorte,
Ainda menina tingida
De cor nefasta.
Sem pai e sem mãe
Pernas abertas gerada…

Logo ao lado em declínio
Um pobre bêbado errante.
Fez da rua morada
Seu telhado as estrelas,
Depois de ficar sem pão…

Mais à frente um rapaz
Num gozo descomunal.
Para ele tanto faz
Na ganza um bacanal…

E logo ali no portal da igreja
Uma mãe qualquer
Que na ´´ foda`` gerou filhos.
Pede esmola, engana a sorte
Numa ladainha de morte…

Mas há ainda por entre telhados
A vileza escondida de um pai quadrado.
´´ fornica`` a filha, e bate no peito consolado.
E aquela mulher continua na viela
Todos lhe apontam o dedo,
Esquecem que a sorte descura
Em princípios maliciosos.

Se é para chocar vamos a isso.
O quotidiano é propício
Ao olhar do poeta.
´´Fornicação``, vício ou isco
Tudo se encaixa no poema ilícito…




Poema erótico...

Se eu escrever um poema erótico
Começo assim.

Vem por entre a névoa da manhã,
Desliza na curva do meu ventre
Vem.
Traz ao meu âmago bagos de romã,
Às minhas coxas a vontade sã,
Que satisfaz o credo!

E depois no instante seguinte
Eleva-me ao céu em tormenta.
Escorrega silenciosamente
Por entre o planalto ao rubro…
Nos lábios deposita corrente
De prazer…
E agora, eleva ao alto o pensamento,
Acabei de jogar aos teus pés
Sonolento atrevimento
Que me faz mulher.

O poema pode ser Burka,
Ou então caminho insidioso.
Pode, vê bem ser Batuta,
Que desbrava sentir ambicioso!

E depois continuo…

No teu corpo viril meu êxtase,
Tremor desenfreado ao segundo.
Sucumbo ao teu cheiro
Ao teu gosto…
E no fim o espasmo certeiro
No terreiro que são os lençóis!
Resta somente a paz,
Ou talvez não…
Acabei de escrever erotismo
Na tua imaginação…