quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Ao Ler...

Existem coisas que não entendo, recuso entendimento.
Palavras truncadas, acções exaltadas em passos trancados.
Que saber…
Para que serve a amputação do verbo, se tudo é simples,
em letra ligeira.
Ou então floreados descabidos do cerne…
Existem coisas que não entendo, nem me esforço,
guardo o alcance para o que vem a seguir.
Vaidade minha, esta falta de entendimento,
Cuido dela ao dormir ao relento, por entre as gentes!
Numa terra sombria a raiar de sol!
Embrenhada na sombra que as ovelhas procuram…
Ai… tão estranha forma de ser em formato gasto p`lo sal,
que as memorias brotam sem vergonha! E depois não entendo…

Recuso entender arabescos floreados no ler.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Simples… Prosa Poética.

Simplicidade, essa palavra singela que desliza enrolada nos dias,
sobrevoados por sonhos, onde os receios dormem.
É tudo tão simples e tão complicado!
A minha e a tua mente paredes meias no ser, afastadas nas firmezas.
Deslizo segura na minha insegurança, deslizas tu inseguro na inseguridade…
Tua companheira de horas mortas, tão torta mas tão segura.
Deslizo sem medo pelo sentir que assumo. Deslizas com medo de perder.
Tão simples quanto isso. Simples como só os simples conseguem ver.
Perguntam certezas ancestrais. – Será simplicidade arrogância?
Respondem inseguros e marginais os sentidos.
 - Sobranceira é a certeza, simples morte dos sonhos.
Então do que falo afinal se nem eu entendo, entenderás porventura…
O amanhã que espera frio e cauteloso, porque agora com naturalidade,
o amor fica guardado no baú das proezas.
É tudo tão simples e tão complicado, como se dois e dois não fossem vinte e dois.
Como se morrer e viver não fosse tudo igual.
A morte de um sonho pode ser a vida de um novo despontar!
Simplicidade palavra fácil mas que invertes quando omites o ser.
Simplicidade na arrogância com que vasculho o teu querer.
E então, então… estarão de mãos dadas a singeleza e a soberba,
com que nós dois vivemos de costas voltadas.



  

Sombras… Prosa Poética.

 Como não… penso comigo enquanto procuro explicação para os medos,
para o teu olhar aguado, onde pernoitei em delírio.
Como não… Quão melindrosa é a razão. Sombras numa parede qualquer,
vestimenta de mulher. Exuberante saber, simples sentir…
Porque a simplicidade é gomo de tangerina saboreada com fervor,
é mel por entre os dedos, escorre vertiginosamente pela mente.
Eleva assim ao monte mais alto o amor!
E o medo… ai o medo de arriscar a ser feliz, atira contigo ao chão.
  -Como não?
Perguntam as vozes que te assombram no sono. E tu dormes,
aconchegado nas certezas, e as incertezas pairam no escuro.
Não te atrevas a respirar, a chamar, a sentir, o cheiro de Abril.
Não vá a sombra que espreita pela fechadura, acordar os mortos.
E nesse dia a Primavera chegará aos campos… Como não.
Penso comigo enquanto no meu receio os teus medos dançam em castigo.
 E o amor definha sem abrigo!


Procura… Prosa Poética

Tempos houve em que o ser tremia, ignóbil sensação de perca,
descabelada rebolava sobre mim mesma, ânsia incontrolável num labirinto.
Onde todos os sentidos mergulhavam no irrequieto que é ´´ não controlar``
as tuas ambições…
Tempos houve em que à tardinha, sentada na soleira da porta,
onde o alpendre assemelha regaço, chorava… a ausência!
Em momentos propícios ao receio de perder.
Hoje, às portas de um outono pardusco vejo o quanto errei.
Não se cativa melancolia que não nos pertença!
Muito menos é utopia a dor em espasmos.
E agora talvez interrogues as gotas de chuva, que trazem à terra vida nova.
Que é feito de mim, que é feito da tábua rasa onde pernoitastes…
Dir-te-á a morrinha outonal - Procura por ela nas esquinas, nos montes e nos pensamentos.
Procura mas não te percas, na perca do que nunca aconteceu-...

Foto de Alfredo Cunha.



  

Perco-me de ti... Prosa Poética.

Perco-me de ti aos poucos, as recordações retidas nos socalcos da memória,
começam a ter a cor do bronze.
E os dias outrora tingidos pela condolência, escorregam agora nas teias da nostalgia.
Matreira vai e vêm como as marés.
Perco a tua imagem, o teu clamor… Dissipa-se a vida vivida na corda bamba.
Pergunto então ao vento que visita amiúde a minha vertigem…
   - Será a recordação, marasmo?
Será certamente água a correr p`ro mar! Teias de aranha que envolvem como véu…
Ou então… será o ar que leva ao coração uma nesga de sonho!
Perco-me de ti aos poucos e na demanda acabarei por perder parte de mim,
aí mendigarei por nenhures, levarei encrostada na alma a ternura,
e quando dormir finalmente no aconchego do barro, escreverei com o branco da cal.

Só assim a memória valeu a pena.