terça-feira, 30 de dezembro de 2014
terça-feira, 23 de dezembro de 2014
A Consoada.
Conto de Natal.
(Porque a vida não espera, e Natal são todos os dias do ano...)
Recostado numa confortável poltrona olhava a parede branca
sem pestanejar, alheio ao cirandar da mulher, que ultimava os preparativos para
a ceia de Natal, tal como nos anos transactos iriam ter a casa cheia. Os filhos
trariam as noras que por sua vez trariam os pais e irmãos, e assim ano após ano
a família aumentava a olhos vistos. Viriam também os irmãos, os avós e alguns
primos e primas. Enfim, uma verdadeira consoada em família, tal como mandam as
regras da boa convivência.
Olhava a parede onde sustido por uma vistosa fita vermelha
pendia um velho e muito valioso retrato de família, que a mulher nessa manhã tinha
esconjuntado do fundo de um baú, guardado há séculos no sótão do robusto
casarão que era morada de ambos. Ao colocar o quadro na parede ela não perdera
tempo e sublinhou ´´ a partir de hoje fica aqui, assim ninguém nesta
casa esquecerá novamente que somos uma família e como tal que prevaleça a
lealdade``.
Na altura não havia ligado às palavras frias da mulher, há muito
que se habituara a ouvir sem ouvir. Ou melhor, ouvia mas não lhe atribuía valor
algum. Se assim não fosse há muito havia enlouquecido.
Estavam casados para mais de trinta anos, desse casamento
haviam nascido quatro filhos, cada qual com a sua vida organizada longe da casa
paterna, e assim acabaram a repartir o espaço numa coabitação umas vezes morna
outras vezes gélida, no icebergue que é uma união onde o amor há muito
desapareceu. Se é que o houvera algum dia, sente que talvez tivesse havido uma
amizade, ou um interesse comum, porque o calor de uma paixão nunca sentiu pela
mulher nem ela por ele, com o nascimento dos filhos cada um direccionou o
interesse pela carreira, numa ânsia tresloucada para acumular sempre mais e
mais. Para eles, amor era dinheiro na conta bancaria. Esqueceram ambos que o
amor é feito de contacto, quer físico quer espiritual. E hoje ambos a meio
caminho da velhice chegam a ter náusea um do outro.
´´ Que ninguém se esqueça que somos uma família`` martelavam
as palavras na sua cabeça. Que família, a família dos dias santos, ou a família
das disputas onde um tentava sempre humilhar o outro e levar a vantagem nessa
humilhação, mau viver tal, que afastava os filhos e os netos da sua
convivência.
Levantou-se ao ouvir a campainha e encaminhou-se para a
porta da rua que abriu pesaroso.
- Boa noite pai, eram os filhos que chegavam
trazendo atrás de si os restantes.
- E ela, perguntou a filha mais nova, - vamos
ver se este ano a festa não acaba em amuo.
- A tua mãe está bem, descobriu que afinal
somos uma família.
- Ah, ainda vai a tempo. Quem sabe tenha
descoberto também que para além de família, todos tem direito a uma opinião, ou
a opções próprias, e principalmente que não existem vítimas, cada um tem a sua
dose de responsabilidade na harmonia familiar…
Após a farta ceia, ele sentou-se novamente na confortável poltrona
olhando os netos que desembrulhavam os presentes de Natal, por entre as suas mãos
geladas tremelicava um envelope que a neta mais velha lhe havia oferecido,
lentamente o abriu e do seu interior retirou um bilhete de comboio.
- É a nossa prenda pai, tens direito a viver o
que nunca viveste, tens direito a ser feliz. E para isso só precisas de um empurrão,
a vida não espera pai. Os filhos em coro.
- E ela, olhou a mulher.
-A avó também tem direito a um, mas com
destino diferente para sermos uma família não precisamos do teu sacrifício, eu
vou viajar com ela. Apressou-se a neta a responder.
Olhou o velho retrato, onde os filhos ainda crianças lhe
sorriam, depois encaminhou o olhar para os homens e mulher na sua frente, que acabaram de
lhe transmitir a esperança numa verdadeira consoada.
domingo, 21 de dezembro de 2014
Feliz Natal...
Luzinhas a saltitar
Pirilampos de luz e
cor
O Pai Natal a sonhar
Que no mundo já não há dor
Este sonho eu vou transpor
Para um mundo de magia
Com muita paz e amor
Muito riso, muita alegria
Até um simples bom-dia
Eu posso encher de luz
Lembrando Jesus que sorria
Estando pregado na cruz
Minha prece se traduz
Num presente requintado
Um pacote de paz e luz
Para um mundo conturbado
Versos de 20-12-2008.
O Pai Natal a sonhar
Que no mundo já não há dor
Este sonho eu vou transpor
Para um mundo de magia
Com muita paz e amor
Muito riso, muita alegria
Até um simples bom-dia
Eu posso encher de luz
Lembrando Jesus que sorria
Estando pregado na cruz
Minha prece se traduz
Num presente requintado
Um pacote de paz e luz
Para um mundo conturbado
Versos de 20-12-2008.
quarta-feira, 17 de dezembro de 2014
terça-feira, 16 de dezembro de 2014
Espanto...
A míngua de
olhar ergue muros,
alcoolizada
pode ser a cegueira…
Brado arrancado
ao sussurro
De um coração
em espanto …
Que é isso
afinal? Perdurável sensação,
que ao dar
se nega o ter, no ser de agora,
que é isso
afinal?
Tumulto de
um dia não,
fechado na
mão, oh não…
Não. Não gastes
saliva em vão.
Escasseia na
palavra amor a garra,
crença elevada
em brado.
Escasseia
nos corpos nus,
nas mentes
fechadas,
até nos
lábios unidos…
A míngua de
olhar ergue muros,
decorados a
bolas vermelhas!
Não fossem
as luzes brilhantes,
e ficavam
por lavrar,
palavras de
amor.
segunda-feira, 15 de dezembro de 2014
A Velha Pasteleira ( Conto de Natal )
Naquela manhã o branco das paredes afigurava-se mais branco,
emoldurado pelo sol matinal de um dia de Inverno, por entre as pedras da
calçada que os seus pés pisavam, em passos pesarosos mas controlados pelo peso
da velha pasteleira, nasciam a medo galrachos, ervas daninhas difíceis de
controlar, até nos passeios da aldeia.
Desconhecia, ou fingia desconhecer que era manhã de Natal, um ou outro
transeunte esporádico que com ele se cruzava quase sempre baixava a cabeça, enquanto
o cumprimentava num carinhoso bom dia. Assim acontecia todas as manhãs, ia para
mais de quinze anos, quando naquele dia fatídico um AVC lhe tolhera para sempre
os movimentos, ficando ainda assim com capacidade de locomoção vagarosa, fez
então da bicicleta a sua bengala, e passou a percorrer as ruas da pacata aldeia
alentejana todas as manhãs, quer fizesse sol ou chuva. A conselho do médico que
o havia avisado, ou se habituava a andar a pé, e a comer com moderação, nada de
fritos ou enchidos, e doces só de vez em quando, tinha também que cortar no
tabaco e no copito de vinho que eram o seu consolo, ou ia desta para melhor,
não restavam dúvidas.
Havia saído de casa, eram mais ou menos oito horas da manhã,
sobressaltou-se com os lamentos do sino da igreja a anunciarem as nove horas,
em compassadas badaladas. Como era possível só ter percorrido duas ruas e já
ser tão tarde. As suas pernas cada vez mais cansadas ficavam a cada dia que
passava, mais e mais preguiçosas, mas como era burro velho jamais lhe levariam
a melhor, o coração também já não ajudava, e às vezes implorava a Deus para que
o chamasse a si, ali, nas pedras do velhinho passeio, por entre os malditos
galrachos. Logo os pensamentos de morte, deitava para trás das costas, como se
atrevia a desejar tal coisa se a sua menina precisava tanto dele.
Apressou o passo de volta a casa, como se isso fosse possível, porém a
sensação de andar mais depressa trazia-lhe aos lábios um sorriso, e a lembrança
dos olhos negros que o esperavam em casa deixavam-no mais jovial. A sua menina
era a luz dos seus olhos.
- Bom dia
Amélia, está um dia lindo.
Cumprimentou-a ao entrar no quarto. Tinha encostado a pedaleira
religiosamente a uma das paredes do corredor que dava acesso à casa. Esta
ficava por detrás de um velho armazém de cereais, agora sem vida mas que em
tempos deu de comer a nove empregados e suas famílias. Sinais dos tempos
modernos e da crise que assolou a vida de muitos. Com ele as coisas tinham sido
diferentes, com a doença foi obrigado a fechar o negócio, como descendente um único
filho de que há muito perdera o rasto. Havia o Emanuel, assim se chamava o
filho, cruzado o oceano em busca de aventuras, que o dinheiro do pai proporcionavam,
e um dia nunca mais chegaram notícias. Acreditava que o filho estava vivo, ao contrário
do pessoal da aldeia que há muito o enterrara. Como não estava para que o
apelidassem de velho louco, nas poucas conversas que mantinha sobre o assunto
com algum vizinho, rematava sempre – se o meu filho fosse vivo. Ou então - paz
à sua alma.
- Então minha menina, hoje não
cumprimenta o velho pai.
Ficou sem resposta, mas ia jurar que ela lhe sorrira. Como se não
bastasse o maldito AVC, e o desaparecimento do filho pelas estradas da vida,
brindara-o esta com a doença da mulher. Alzheimer, a maldita doença que tolhe a
memória, e aos poucos a sua menina foi ficando cada vez mais menina, nem sequer
se lembrava de ter sido mãe.
Por entre os pensamentos a vestiu e a sentou na cadeira de rodas, que
empurrou a custo para junto da velha chaminé. Onde ardia um garboso madeiro de
azinho, protegido por uma sólida grade de ferro fundido. Não fosse o diabo tecê-las
e a sua menina cair ao lume.
Estava o tio Horácio a tentar convencer a mulher a engolir as sopas de
leite do pequeno-almoço, quando umas pancadas secas no velho portão da entrada
lhe chamaram a atenção.
- Espera um pouco, vou ver quem é, não saias
daqui.
Pediu ao sair para o corredor, frio e desnutrido de vida. Ainda afagou
a velha pasteleira ao passar.
O homem que o portão escondia, tremia que nem varas verdes, não tanto
pelo frio e sim pela saudade.
- Bom dia…
Balbuciou o velho olhando-o intrigado, iria jurar que os olhos pretos
por detrás das grossas lentes não lhe eram estranhos, tentou adivinhar as
feições que a branca e farta barba escondia, mas o seu coração de velho
conteve-se.
- Bom dia, pai. Feliz Natal.
Estão agora os três, sentados em frente do braseiro, até os madeiros
mais robustos, sucumbem às labaredas, e eles quase sucumbiram à vida e à distância,
porém Deus acaba sempre por escrever certo por linhas tortas, e quem sabe sejam
as dores o verdadeiro inferno, mas a esperança traz sempre uma nova aurora.
No dia seguinte talvez ganhasse coragem para conversar como filho sobre
tão longa ausência, mas era dia de Natal e no Natal é tempo de viver.
Até a sua menina cantarolou, aquela cantiga de embalar com que adormecia
o filho, quando bebé. Porém ao terminar perguntou com um brilho maroto nos
olhos pretos.
- Vocês os dois, quem são?
O Pai e o filho olharam um para o outro e foi o velho pai que respondeu.
- Ninguém, somos ninguém, e ao
mesmo tempo somos duendes, existimos para que tu sorrias.
Ela deu uma gargalhada. Ao longe, na praça da
aldeia o sino redobrava a Ave-Maria, assinalando que já era meia-noite.
E Jesus nasceu.
Antónia Ruivo, Dezembro 2014
Foto: Antónia Ruivo.
terça-feira, 9 de dezembro de 2014
Gosto de sair para a rua. (Crónica do esquecimento).
Como mulher ligada às letras gosto de sair para a rua, e este sair para a rua levaria o leitor a pensar que gosto de bater perna por aí, ao sabor da descoberta. Pode ser que sim, pode ser que não.
O facto, ou o ´´fato`` que a concórdia recente em volta da língua mãe e que me salta à vista em tudo o que é escrito nas bancas de jornais, ou nas telas televisivas, mas que eu e uns quantos revolucionários linguísticos teimamos em ignorar. A bem dizer, aqui o termo revolucionário transporta um sentido antagónico à coisa. E arrisco assim meia dúzia de olhares de esguelha, pois li algures por aí mais ou menos isto. Que o acordo é tão-somente um salto no futuro, tudo é mutável, e revisões à língua materna tem vindo a acontecer esporadicamente ao longo dos tempos, rematava o artigo com uma reflexão muito bem elaborada, por sinal, sobre a origem do latim e a sua influência na língua portuguesa ou no galaico, assim como o salto para o actual português, que não vem agora ao caso, de Latim não percebo patavina.
Por isso mesmo adiante, o facto é que o tempo urge e conversa que se perde nas entrelinhas numa ânsia de perdurar, normalmente é sol de pouca dura. Assim sendo dou asas aos pensamentos numa tentativa de que o meu ´´latim`` não vá por água abaixo. Tal como as aspas que gosto de utilizar nos textos que escrevo, e que às vezes se perdem em contramão no Facebook, e volta e meia lá vem uma alma caridosa elucidar-me que esta ou aquela palavra caiu em desuso, ou que é gíria, outras vezes que é lastimoso que eu, logo eu, que tenho a mania que sou escritora não tenha cuidado redobrado com os termos utilizados naquilo que quero transmitir. Será de bom-tom informar, que normalmente o faço com a noção perfeita do efeito que determinada frase ou palavra em desuso terá no leitor. Imodéstia minha, assumo, é tão-somente a minha contribuição para que a lembrança não falhe.
A lembrança, ou ´´alembradura`` alcançará o auge se se souberem preservar memórias, e claro está, a língua é e sempre foi a nossa memória palpável.
A ´´ alembradura`` é para aqui chamada porque frequentemente a ouço a rapazes e raparigas enquanto esperam o autocarro, na praça fronteiriça á minha casa, e dou por mim a rir a bandeiras despregadas do português que os miúdos de agora falam. Sem que deixe de ficar estupefacta com o papel da escola para que assim seja, este meu estado pasmado deve-se à memória bem latente da palmatória da professora Rosário Maltez, a cada facada que eu dava na língua mãe.
Voltando ao sair para a rua, gosto de sair para a rua, de me perder nas conversas alheias, estou mesmo a ver, lá me vão acusar de cusca. E conseguiria eu colocar alguma coisa no papel se assim não fosse?
Para terminar apraz dizer que tenho saído para a rua nas últimas semanas, e que apesar das luzes natalícias não cheira a Natal, as conversas não cheiram a Natal.
Cheiram a velhice, a ordenados em atraso, a crise nas pedreiras e nos outros sectores da economia, cheiram a angústia.
Mas como sou cusca e acima de tudo inconformada, gostava de ter saído para a rua e que as conversas mais ou menos intelectuais tivessem descaído na última semana no Ranking das Escolas 2014 e do resultado da escola que a minha filha frequenta, constar nos últimos lugares da lista.
Coisas que a ´´ ALEMBRADURA`` das conversas estudantis enquanto esperam pelo autocarro me traz à ´´ MIMORIA``
Gosto de sair para a rua e de ouvir, mais do que conversar, gosto de sair para a rua e de ouvir os desconhecidos, bem mais do que aqueles que tal como eu se julgam intelectuais.
Só assim as palavras que escrevo têm algum sentido.
Dizia-me um dia destes um antigo professor, ao ser-lhe apresentada por um amigo.
- Ah, escreve poesia, espero que saiba transmitir alguma coisa naquilo que escreve, senão não vale a pena.
Respondi, -acho que não sei escrever palavras bonitas aos olhos de quem lê-.
Olhou-me incrédulo, como quem diz.
´´ Pois sim``…
Antónia Ruivo.
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