terça-feira, 23 de dezembro de 2014

A Consoada.

Conto de Natal.

(Porque a vida não espera, e Natal são todos os dias do ano...)

Recostado numa confortável poltrona olhava a parede branca sem pestanejar, alheio ao cirandar da mulher, que ultimava os preparativos para a ceia de Natal, tal como nos anos transactos iriam ter a casa cheia. Os filhos trariam as noras que por sua vez trariam os pais e irmãos, e assim ano após ano a família aumentava a olhos vistos. Viriam também os irmãos, os avós e alguns primos e primas. Enfim, uma verdadeira consoada em família, tal como mandam as regras da boa convivência.

Olhava a parede onde sustido por uma vistosa fita vermelha pendia um velho e muito valioso retrato de família, que a mulher nessa manhã tinha esconjuntado do fundo de um baú, guardado há séculos no sótão do robusto casarão que era morada de ambos. Ao colocar o quadro na parede ela não perdera tempo e sublinhou  ´´ a partir de hoje fica aqui, assim ninguém nesta casa esquecerá novamente que somos uma família e como tal que prevaleça a lealdade``.

Na altura não havia ligado às palavras frias da mulher, há muito que se habituara a ouvir sem ouvir. Ou melhor, ouvia mas não lhe atribuía valor algum. Se assim não fosse há muito havia enlouquecido.
Estavam casados para mais de trinta anos, desse casamento haviam nascido quatro filhos, cada qual com a sua vida organizada longe da casa paterna, e assim acabaram a repartir o espaço numa coabitação umas vezes morna outras vezes gélida, no icebergue que é uma união onde o amor há muito desapareceu. Se é que o houvera algum dia, sente que talvez tivesse havido uma amizade, ou um interesse comum, porque o calor de uma paixão nunca sentiu pela mulher nem ela por ele, com o nascimento dos filhos cada um direccionou o interesse pela carreira, numa ânsia tresloucada para acumular sempre mais e mais. Para eles, amor era dinheiro na conta bancaria. Esqueceram ambos que o amor é feito de contacto, quer físico quer espiritual. E hoje ambos a meio caminho da velhice chegam a ter náusea um do outro.

´´ Que ninguém se esqueça que somos uma família`` martelavam as palavras na sua cabeça. Que família, a família dos dias santos, ou a família das disputas onde um tentava sempre humilhar o outro e levar a vantagem nessa humilhação, mau viver tal, que afastava os filhos e os netos da sua convivência.
Levantou-se ao ouvir a campainha e encaminhou-se para a porta da rua que abriu pesaroso.
   - Boa noite pai, eram os filhos que chegavam trazendo atrás de si os restantes.
   - E ela, perguntou a filha mais nova, - vamos ver se este ano a festa não acaba em amuo.
   - A tua mãe está bem, descobriu que afinal somos uma família.
   - Ah, ainda vai a tempo. Quem sabe tenha descoberto também que para além de família, todos tem direito a uma opinião, ou a opções próprias, e principalmente que não existem vítimas, cada um tem a sua dose de responsabilidade na harmonia familiar…

Após a farta ceia, ele sentou-se novamente na confortável poltrona olhando os netos que desembrulhavam os presentes de Natal, por entre as suas mãos geladas tremelicava um envelope que a neta mais velha lhe havia oferecido, lentamente o abriu e do seu interior retirou um bilhete de comboio.
   - É a nossa prenda pai, tens direito a viver o que nunca viveste, tens direito a ser feliz. E para isso só precisas de um empurrão, a vida não espera pai. Os filhos em coro.
   - E ela, olhou a mulher.
   -A avó também tem direito a um, mas com destino diferente para sermos uma família não precisamos do teu sacrifício, eu vou viajar com ela. Apressou-se a neta a responder.

Olhou o velho retrato, onde os filhos ainda crianças lhe sorriam, depois encaminhou o olhar para os homens e mulher na sua frente, que acabaram de lhe transmitir a esperança numa verdadeira consoada.



domingo, 21 de dezembro de 2014

Feliz Natal...

Luzinhas a saltitar
Pirilampos de luz e cor
O Pai Natal a sonhar
Que no mundo já não há dor

Este sonho eu vou transpor
Para um mundo de magia
Com muita paz e amor
Muito riso, muita alegria

Até um simples bom-dia
Eu posso encher de luz
Lembrando Jesus que sorria
Estando pregado na cruz

Minha prece se traduz
Num presente requintado
Um pacote de paz e luz
Para um mundo conturbado

Versos de 20-12-2008.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Espanto...

A míngua de olhar ergue muros,
alcoolizada pode ser a cegueira…
Brado arrancado ao sussurro
De um coração em espanto …

Que é isso afinal? Perdurável sensação,
que ao dar se nega o ter, no ser de agora,
que é isso afinal?

Tumulto de um dia não,
fechado na mão, oh não…
Não. Não gastes saliva em vão.

Escasseia na palavra amor a garra,
crença elevada em brado.
Escasseia nos corpos nus,
nas mentes fechadas,
até nos lábios unidos…

A míngua de olhar ergue muros,
decorados a bolas vermelhas!
Não fossem as luzes brilhantes,
e ficavam por lavrar,
palavras de amor.


segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

A Velha Pasteleira ( Conto de Natal )

        Naquela manhã o branco das paredes afigurava-se mais branco, emoldurado pelo sol matinal de um dia de Inverno, por entre as pedras da calçada que os seus pés pisavam, em passos pesarosos mas controlados pelo peso da velha pasteleira, nasciam a medo galrachos, ervas daninhas difíceis de controlar, até nos passeios da aldeia.
Desconhecia, ou fingia desconhecer que era manhã de Natal, um ou outro transeunte esporádico que com ele se cruzava quase sempre baixava a cabeça, enquanto o cumprimentava num carinhoso bom dia. Assim acontecia todas as manhãs, ia para mais de quinze anos, quando naquele dia fatídico um AVC lhe tolhera para sempre os movimentos, ficando ainda assim com capacidade de locomoção vagarosa, fez então da bicicleta a sua bengala, e passou a percorrer as ruas da pacata aldeia alentejana todas as manhãs, quer fizesse sol ou chuva. A conselho do médico que o havia avisado, ou se habituava a andar a pé, e a comer com moderação, nada de fritos ou enchidos, e doces só de vez em quando, tinha também que cortar no tabaco e no copito de vinho que eram o seu consolo, ou ia desta para melhor, não restavam dúvidas.
Havia saído de casa, eram mais ou menos oito horas da manhã, sobressaltou-se com os lamentos do sino da igreja a anunciarem as nove horas, em compassadas badaladas. Como era possível só ter percorrido duas ruas e já ser tão tarde. As suas pernas cada vez mais cansadas ficavam a cada dia que passava, mais e mais preguiçosas, mas como era burro velho jamais lhe levariam a melhor, o coração também já não ajudava, e às vezes implorava a Deus para que o chamasse a si, ali, nas pedras do velhinho passeio, por entre os malditos galrachos. Logo os pensamentos de morte, deitava para trás das costas, como se atrevia a desejar tal coisa se a sua menina precisava tanto dele.
Apressou o passo de volta a casa, como se isso fosse possível, porém a sensação de andar mais depressa trazia-lhe aos lábios um sorriso, e a lembrança dos olhos negros que o esperavam em casa deixavam-no mais jovial. A sua menina era a luz dos seus olhos.
    - Bom dia Amélia, está um dia lindo.
Cumprimentou-a ao entrar no quarto. Tinha encostado a pedaleira religiosamente a uma das paredes do corredor que dava acesso à casa. Esta ficava por detrás de um velho armazém de cereais, agora sem vida mas que em tempos deu de comer a nove empregados e suas famílias. Sinais dos tempos modernos e da crise que assolou a vida de muitos. Com ele as coisas tinham sido diferentes, com a doença foi obrigado a fechar o negócio, como descendente um único filho de que há muito perdera o rasto. Havia o Emanuel, assim se chamava o filho, cruzado o oceano em busca de aventuras, que o dinheiro do pai proporcionavam, e um dia nunca mais chegaram notícias. Acreditava que o filho estava vivo, ao contrário do pessoal da aldeia que há muito o enterrara. Como não estava para que o apelidassem de velho louco, nas poucas conversas que mantinha sobre o assunto com algum vizinho, rematava sempre – se o meu filho fosse vivo. Ou então - paz à sua alma.
  - Então minha menina, hoje não cumprimenta o velho pai.
Ficou sem resposta, mas ia jurar que ela lhe sorrira. Como se não bastasse o maldito AVC, e o desaparecimento do filho pelas estradas da vida, brindara-o esta com a doença da mulher. Alzheimer, a maldita doença que tolhe a memória, e aos poucos a sua menina foi ficando cada vez mais menina, nem sequer se lembrava de ter sido mãe.
Por entre os pensamentos a vestiu e a sentou na cadeira de rodas, que empurrou a custo para junto da velha chaminé. Onde ardia um garboso madeiro de azinho, protegido por uma sólida grade de ferro fundido. Não fosse o diabo tecê-las e a sua menina cair ao lume.
Estava o tio Horácio a tentar convencer a mulher a engolir as sopas de leite do pequeno-almoço, quando umas pancadas secas no velho portão da entrada lhe chamaram a atenção.
    - Espera um pouco, vou ver quem é, não saias daqui.
Pediu ao sair para o corredor, frio e desnutrido de vida. Ainda afagou a velha pasteleira ao passar.
O homem que o portão escondia, tremia que nem varas verdes, não tanto pelo frio e sim pela saudade.
   - Bom dia…
Balbuciou o velho olhando-o intrigado, iria jurar que os olhos pretos por detrás das grossas lentes não lhe eram estranhos, tentou adivinhar as feições que a branca e farta barba escondia, mas o seu coração de velho conteve-se.
 - Bom dia, pai. Feliz Natal.

Estão agora os três, sentados em frente do braseiro, até os madeiros mais robustos, sucumbem às labaredas, e eles quase sucumbiram à vida e à distância, porém Deus acaba sempre por escrever certo por linhas tortas, e quem sabe sejam as dores o verdadeiro inferno, mas a esperança traz sempre uma nova aurora.
No dia seguinte talvez ganhasse coragem para conversar como filho sobre tão longa ausência, mas era dia de Natal e no Natal é tempo de viver.
Até a sua menina cantarolou, aquela cantiga de embalar com que adormecia o filho, quando bebé. Porém ao terminar perguntou com um brilho maroto nos olhos pretos.
 - Vocês os dois, quem são?
O Pai e o filho olharam um para o outro  e foi  o velho pai que respondeu.
  - Ninguém, somos ninguém, e ao mesmo tempo somos duendes, existimos para que tu sorrias.
   Ela deu uma gargalhada. Ao longe, na praça da aldeia o sino redobrava a Ave-Maria, assinalando que já era meia-noite.
E Jesus nasceu.

Antónia Ruivo, Dezembro 2014
Foto: Antónia Ruivo.



terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Gosto de sair para a rua. (Crónica do esquecimento).

Como mulher ligada às letras gosto de sair para a rua, e este sair para a rua levaria o leitor a pensar que gosto de bater perna por aí, ao sabor da descoberta. Pode ser que sim, pode ser que não.
O facto, ou o ´´fato`` que a concórdia recente em volta da língua mãe e que me salta à vista em tudo o que é escrito nas bancas de jornais, ou nas telas televisivas, mas que eu e uns quantos revolucionários linguísticos teimamos em ignorar. A bem dizer, aqui o termo revolucionário transporta um sentido antagónico à coisa. E arrisco assim meia dúzia de olhares de esguelha,  pois li algures por aí mais ou menos isto. Que o acordo é tão-somente um salto no futuro, tudo é mutável, e revisões à língua materna tem vindo a acontecer esporadicamente ao longo dos tempos, rematava o artigo com uma reflexão muito bem elaborada, por sinal, sobre a origem do latim e a sua influência na língua portuguesa ou no galaico, assim como o salto para o actual português, que não vem agora ao caso, de Latim não percebo patavina.

Por isso mesmo adiante, o facto é que o tempo urge e conversa que se perde nas entrelinhas numa ânsia de perdurar, normalmente é sol de pouca dura. Assim sendo dou asas aos pensamentos numa tentativa de que o meu ´´latim`` não vá por água abaixo. Tal como as aspas que gosto de utilizar nos textos que escrevo, e que às vezes se perdem em contramão no Facebook, e volta e meia lá vem uma alma caridosa elucidar-me que esta ou aquela palavra caiu em desuso, ou que é gíria, outras vezes que é lastimoso que eu, logo eu, que tenho a mania que sou escritora não tenha cuidado redobrado com os termos utilizados naquilo que quero transmitir. Será de bom-tom informar, que normalmente o faço com a noção perfeita do efeito que determinada frase ou palavra em desuso terá no leitor. Imodéstia minha, assumo, é tão-somente a minha contribuição para que a lembrança não falhe.

A lembrança, ou ´´alembradura`` alcançará o auge se se souberem preservar memórias, e claro está, a língua é e sempre foi a nossa memória palpável.

A ´´ alembradura`` é para aqui chamada porque frequentemente a ouço a rapazes e raparigas enquanto esperam o autocarro, na praça fronteiriça á minha casa, e dou por mim a rir a bandeiras despregadas do português que os miúdos de agora falam. Sem que deixe de ficar estupefacta com o papel da escola para que assim seja, este meu estado pasmado deve-se à memória bem latente da palmatória da professora Rosário Maltez, a cada facada que eu dava na língua mãe.
Voltando ao sair para a rua, gosto de sair para a rua, de me perder nas conversas alheias, estou mesmo a ver, lá me vão acusar de cusca. E conseguiria eu colocar alguma coisa no papel se assim não fosse?

Para terminar apraz dizer que tenho saído para a rua nas últimas semanas, e que apesar das luzes natalícias não cheira a Natal, as conversas não cheiram a Natal.

Cheiram a velhice, a ordenados em atraso, a crise nas pedreiras e nos outros sectores da economia, cheiram a angústia.

Mas como sou cusca e acima de tudo inconformada, gostava de ter saído para a rua e que as conversas mais ou menos intelectuais tivessem descaído na última semana no Ranking das Escolas 2014 e do resultado da escola que a minha filha frequenta, constar nos últimos lugares da lista.
Coisas que a ´´ ALEMBRADURA`` das conversas estudantis enquanto esperam pelo autocarro me traz à ´´ MIMORIA``
Gosto de sair para a rua e de ouvir, mais do que conversar, gosto de sair para a rua e de ouvir os desconhecidos, bem mais do que aqueles que tal como eu se julgam intelectuais.

Só assim as palavras que escrevo têm algum sentido.
Dizia-me um dia destes um antigo professor, ao ser-lhe apresentada por um amigo.
 - Ah, escreve poesia, espero que saiba transmitir alguma coisa naquilo que escreve, senão não vale a pena.
Respondi, -acho que não sei escrever palavras bonitas aos olhos de quem lê-.
Olhou-me incrédulo, como quem diz.
´´ Pois sim``…

Antónia Ruivo.