quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Areias...

Se as pérolas fossem pedras, as que deslizam
dos meus olhos na alta madrugada. Eu diria
que um açude se constrói na ingratidão,
que sinto ao acordar com frio… No raiar do dia!

Se muros fossem castelos em corrosão.
E a distancia ténue linha na manhã fria.
Seria a saudade cascata, e a ondulação
da água ao correr, alma liberta e vadia…

Por tudo isso te digo o que o pensar desdiz.
São os sonhos pétalas onde o orvalho pernoita,
e o amor… ai o amor é por vezes ponta solta!

Na vida. Onde as amarras são parcas colmeias,
e todas as lágrimas deslizam nas areias,
que encalham no destino que perdiz…

Numa valeta qualquer...

Quisera o poema esquecer o mundo
E todos os versos seriam soterrados
Em quimeras cor-de-rosa.

Quisera eu ser cega, e muda porque não.
Voar como as borboletas, ao fim de horas o chão…
Quisera ser água barrenta, moinho sem mós e sem vento.
Bailarina sem orquestra, criança de olhar crédulo.

Quisera o poema esquecer o mundo
Sentado numa poltrona.
Ou não fosse mendigo e desnudo
Que de pés no chão derrama.

Sangue… numa valeta qualquer.


terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Alento...

Deixa as tuas dores de lado, falou o vento!
Não queiras saber de amores, gritou o sol!
Compõe em seara alheia, numa vertigem alento.
Semeia em terra estéril esperança como lençol.

Deixa as tuas dores de lado. São débil argumento,
às mentes na distância. Não podem ser paiol,
não devem ser… Conduz o pensamento
pela campina em flor… Nascerá um girassol.

Numa rima incompleta leva uma certeza,
a Primavera não nasce em Abril.
Ai poeta de coisa alguma, destino vil.

Olha ao longe o sereno, onde reina estranheza,
correnteza azulada nos olhos de alguém…
Olha… Mesmo o alarde fica sempre aquém.




terça-feira, 23 de dezembro de 2014

A Consoada.

Conto de Natal.

(Porque a vida não espera, e Natal são todos os dias do ano...)

Recostado numa confortável poltrona olhava a parede branca sem pestanejar, alheio ao cirandar da mulher, que ultimava os preparativos para a ceia de Natal, tal como nos anos transactos iriam ter a casa cheia. Os filhos trariam as noras que por sua vez trariam os pais e irmãos, e assim ano após ano a família aumentava a olhos vistos. Viriam também os irmãos, os avós e alguns primos e primas. Enfim, uma verdadeira consoada em família, tal como mandam as regras da boa convivência.

Olhava a parede onde sustido por uma vistosa fita vermelha pendia um velho e muito valioso retrato de família, que a mulher nessa manhã tinha esconjuntado do fundo de um baú, guardado há séculos no sótão do robusto casarão que era morada de ambos. Ao colocar o quadro na parede ela não perdera tempo e sublinhou  ´´ a partir de hoje fica aqui, assim ninguém nesta casa esquecerá novamente que somos uma família e como tal que prevaleça a lealdade``.

Na altura não havia ligado às palavras frias da mulher, há muito que se habituara a ouvir sem ouvir. Ou melhor, ouvia mas não lhe atribuía valor algum. Se assim não fosse há muito havia enlouquecido.
Estavam casados para mais de trinta anos, desse casamento haviam nascido quatro filhos, cada qual com a sua vida organizada longe da casa paterna, e assim acabaram a repartir o espaço numa coabitação umas vezes morna outras vezes gélida, no icebergue que é uma união onde o amor há muito desapareceu. Se é que o houvera algum dia, sente que talvez tivesse havido uma amizade, ou um interesse comum, porque o calor de uma paixão nunca sentiu pela mulher nem ela por ele, com o nascimento dos filhos cada um direccionou o interesse pela carreira, numa ânsia tresloucada para acumular sempre mais e mais. Para eles, amor era dinheiro na conta bancaria. Esqueceram ambos que o amor é feito de contacto, quer físico quer espiritual. E hoje ambos a meio caminho da velhice chegam a ter náusea um do outro.

´´ Que ninguém se esqueça que somos uma família`` martelavam as palavras na sua cabeça. Que família, a família dos dias santos, ou a família das disputas onde um tentava sempre humilhar o outro e levar a vantagem nessa humilhação, mau viver tal, que afastava os filhos e os netos da sua convivência.
Levantou-se ao ouvir a campainha e encaminhou-se para a porta da rua que abriu pesaroso.
   - Boa noite pai, eram os filhos que chegavam trazendo atrás de si os restantes.
   - E ela, perguntou a filha mais nova, - vamos ver se este ano a festa não acaba em amuo.
   - A tua mãe está bem, descobriu que afinal somos uma família.
   - Ah, ainda vai a tempo. Quem sabe tenha descoberto também que para além de família, todos tem direito a uma opinião, ou a opções próprias, e principalmente que não existem vítimas, cada um tem a sua dose de responsabilidade na harmonia familiar…

Após a farta ceia, ele sentou-se novamente na confortável poltrona olhando os netos que desembrulhavam os presentes de Natal, por entre as suas mãos geladas tremelicava um envelope que a neta mais velha lhe havia oferecido, lentamente o abriu e do seu interior retirou um bilhete de comboio.
   - É a nossa prenda pai, tens direito a viver o que nunca viveste, tens direito a ser feliz. E para isso só precisas de um empurrão, a vida não espera pai. Os filhos em coro.
   - E ela, olhou a mulher.
   -A avó também tem direito a um, mas com destino diferente para sermos uma família não precisamos do teu sacrifício, eu vou viajar com ela. Apressou-se a neta a responder.

Olhou o velho retrato, onde os filhos ainda crianças lhe sorriam, depois encaminhou o olhar para os homens e mulher na sua frente, que acabaram de lhe transmitir a esperança numa verdadeira consoada.



domingo, 21 de dezembro de 2014

Feliz Natal...

Luzinhas a saltitar
Pirilampos de luz e cor
O Pai Natal a sonhar
Que no mundo já não há dor

Este sonho eu vou transpor
Para um mundo de magia
Com muita paz e amor
Muito riso, muita alegria

Até um simples bom-dia
Eu posso encher de luz
Lembrando Jesus que sorria
Estando pregado na cruz

Minha prece se traduz
Num presente requintado
Um pacote de paz e luz
Para um mundo conturbado

Versos de 20-12-2008.