domingo, 4 de setembro de 2016

E o seu coração de pedra...

Não sei se me vê quando por mim passa.
Se um cisco no olho lhe turva a visão!
Se por outro lado são palas a ablepsia…
Urbanidade tosca, aparato sem afeição.

Bom dia ao virar da esquina, boa noite e passa…
Verá que não dói, nem terá comichão.
Voltará aos segundos; enrolado em tralha…
Quando muito; sentirá ténue leveza no coração.

Repare com atenção; ao que chama animal…
Tem quatro patas, quadrúpede ao nascer.
No tanto que lhe ensina ao seu igual acorrer…

Por isso da próxima vez, não finja; não ver…
Levante os olhos do chão, o sol brilha ao nascer.
E o seu coração de pedra deixará de ser boçal…



Irá o amor vencer...

Irá o amor vencer o cansaço sem hora,
nem dia marcado? Irá o rosto esconder
a dor que no peito sem bater, aflora?
Enquanto te encantas num mero fazer…

Fazer, o que todos fazem, só mais um agora…
Um grito bem alto a sair da alma, que fazer?
Se finge não ver no meu rosto a calma.
Dorida e treinada mesmo que a sofrer.

Irá o amor vencer a estranha mascara?
Ou simplesmente encolhe os ombros?
Enquanto a morte ronda e desgasta…

Todos os pontos em comum. Em destroços
deixa o que resta da comunhão! Insana;
 a certeza de que simulacros são esboços.  


sábado, 3 de setembro de 2016

Amor em tres letras.

Seja onde for que a noite germine.
É no nascer do sol que a alma desponta.
Seja o que for que o coração confirme.
Vem através dos olhos o nascer da aurora.

Transversal é o desejo que ilumine;
 Mesmo que a vaga seja dolente, insana.
Ou que a vida seja assim, assim. Define
a palavra amor em três letras.  Chegou a hora…

Do toque das mãos, do roçar dos dedos.
Dos beijos prolongados, sem degredos.
Regressou a hora das certezas a bailar!

P’lo terreiro da saudade sempre a cantar:
ao teu ouvido em jubileu. Meu deus!
Chegou a hora do ser gritar, sem lapsos.




O sabor da tua pele...

Se trouxeres o calor do teu corpo ao meu…
Tão frio e desnudo, em tudo mármore!
Desenlaça o mistério da laje fria, Orfeu…
Faz como os pássaros. Observa a metamorfose…

 Faz como as árvores ao deixarem o céu…
Extasia o sonho p´la noite estrelada e luzente.
Entrelaça nos dedos a minha pele. Ilhéu;
que transformas em estrela cadente.

Vem… Deixa que o amor seja só amor, maior.
Que os lábios comandem os nossos corpos.
E que a noite aconteça nos nossos abraços.

Ou então, vai… Leva na bagagem os passos…
Numa viagem sem volta. Mas deixa o sabor:
Da tua pele no meu regaço, por favor.

Não...

Anda o amor arredio da porta trancada…
No supérfluo de um dia. Anda arredio!
E todos os olhos longe da porta trancada.
A sete chaves. Ilusão que desdigo num grito!

 Falta de crença a meio caminho de nada.
Nem todos os instantes são balão colorido.
Nem todas as vias são semente empoeirada.
Deitada à terra, floresce ao cair da chuva…

Anda o amor arredio… será que o amor tem olhos?
Os pirilampos iluminam na noite sem luar!
Enquanto as cigarras cantam sem parar…

Será que o amor tem olhos, ou são sonhos
as inquietações da alma, e eu sou parca a olhar?
Não… sou filha do vento no céu o meu lar.



Da tua loucura nada restou…

Ninguém é melhor do que ninguém, ninguém.
Existe a água salobra e a que não é… Mesmo assim
existe a água salgada! A da chuva é sempre vaivém
entre o rio e o mar, liberta; em constante frenesim…

Ninguém é melhor, tão pouco ficará aquém.
Pensando que estou certa digo de mim para mim.
As paredes não têm ouvidos, ou será que tem?
Mas fico perdida com a grandeza do chinfrim…

Que os pensamentos alimentam, tresloucados!
Se não sou melhor do que o outro, o que sou?
Questiona o meu ego inflamado, sonhos trocados…

Quase sempre encolho os ombros e assim: vou
sem caminho certo, em passos deliberados…
Pobre criatura… Da tua loucura nada restou!



quarta-feira, 31 de agosto de 2016

As nossas conversas...

Fala comigo; nas palavras traz melodia.
Dança comigo; mas nos passos traz as asas.
Sorri também e oferece aos lábios o dia.
Para que eles se atrevam a desviar as águas…

Correm nos meus olhos amiúde, maré vazia
por onde os sonhos se esvaem. Catacumbas
imagináveis às quimeras cor de terra.
Ao meu ser insatisfeito. Por outras palavras:

Fala comigo em voz serena. Na embriagues
da descoberta, fala comigo de outra maneira…
Não fales só de açucenas. No solo a languidez

de uma campina em flor. Por isso; sorri à eira
que os nossos passos palmilham e talvez…
As nossas conversas sejam o atear da fogueira.






Palavras ao Vento Suão, Antónia Ruivo