sábado, 10 de junho de 2017

Quem sabe...

 Porque será que sinto que a poesia não é minha?
Estou despojada deste sentimento de posse.
Sei que sou o recipiente que fertiliza a emoção.
A marioneta que alcança a imaginação.
O portal onde dançam os receios ou os sonhos.
Por tudo isto não sei o que é isso; da minha poesia!
 Não…!
Quando os versos são caravelas em mar revolto de ambição.
Quando os sentimentos são fantoches na minha mão.
Mesmo que as palavras agonizem, estou imune à pena.
Sendo a própria pena a ferramenta de trabalho.
E as alegrias as orgias onde deleito o prazer.

Porque será que sinto que a poesia não é minha?
Quem sabe… Porque são os versos os filhos bastardos
na roda da sobrevivência!


sexta-feira, 9 de junho de 2017

Deixa...

Deixa que adormeça nos teus braços.
Mas não é para dormir só por dormir.
Tal como os pardais pelos silvados.
Deixa que me embale no teu sentir.

Já que os passos andam tresmalhados.
Tal como uma criança e o seu sorrir.
Deixa que acalente ágeis bailados.
E que neles surjam estrelas a provir.

Anda o tempo sempre de enxurrada.
Andamos nós sempre em roda-viva.
Esquece meu amor os desencontros.

Não passam de passos apresados.
Quase sempre escondem os cansaços.
Mas não é isso que conta nesta vida. 



quinta-feira, 8 de junho de 2017

Quero um abraço ou um beijo por inteiro...

Não quero perder tempo que não tenho.
A vida é errata… caminhada é contenda…
Basta olhar em redor com algum engenho:
Para perceber o sentido da imensa lida.

Por isso: Deixo ao tempo qualquer lenho.          
Na fogueira quero amor, quero maresia.
Quero um abraço ou um beijo por inteiro.
Metades: deixo às laranjas essa fantasia.

Chama-me louca, de que importa o delírio.
Quando a chuva cai na terra alaga o chão.
Passam semanas e floresce no campo o lírio.

Tal como ele… também me visto de roxo!  
Das suas raízes amasso o meu escuro pão.
Sou como sou… água ou vinho de fino mosto!


Isto sou eu a pensar...


Sou uma pobre poeta
sem ter onde cair morta
mesmo andando em linha recta
a curva me bate à porta.

Quatro versos pequeninos
deles faço o meu destino
embora sejam franzinos
são a capa de burel
que teço em tear de menino.

São Samarra de ovelha negra
os pés e os sapatos
sobre as pedras a granel
rasgam as solas dos pés
quando correm em viés
as rimas são como o mel
P`las planícies alentejanas
são gaiatas as maganas
 frias como a mortalha
São foice e são navalha
cobrem a terra de sangue
de manhã ao por do sol
tristes rimas são lençol
com buracos na largura
no comprimento a fissura
onde falta claridade.
Ser poeta: Que vaidade!
sempre que me olho no espelho
que de tão frio e matreiro
finge que não me vê
vá-se lá saber, porquê!…
Mas que horrível criatura
esquece que é desventura
esta sina endiabrada
os meus versos são a estrada
que me levam a nenhures
enquanto a alma vagueia
Por mundos nunca vistos!

Diga lá se é capaz
de contrariar a contenda
estas rimas são cartaz
correndo ladeira acima.

É muito mais do que sina
comigo dormem na cama
mas se julga que me engana
vive no mundo da lua
esteja vestida ou nua
quem leva a melhor sou eu
escrevo versos como milho
em capoeira de terra
sou eu quem manda na safra
seja qual for o sermão
meus versos de mão em mão
vadios pelas ruelas
ou em belas caravelas
galgando o oceano…
Sonetos embaciados
outras vezes são brocados
se os escrevo a preceito
os meus versos são pecado
de columbina arisca
quem não arrisca… Petisca?

são pelintras, são engano
são tudo o que eu quiser
eu e eles mano a mano…
Só servem pra meu prazer!

São a dor e o crer
num mundo Destrambelhado
na minha alma são fado
um malmequer amarelo
o que é que eu hei-de fazer
à arisca criatura
meus versos são desventura
nos dias frios de inverno
no verão são o inferno
quarenta graus de calor
dos pobres são o clamor
dos amantes a paixão
andam sempre em contramão
malditos como um exame
mesmo que haja desmame
voltam sempre ao mesmo sítio
o meu peito é o postigo
das estrofes endiabradas
tal a corça pelas serras
galgam vales e outeiros
já viram como são matreiros
canto até à eternidade
inchada com a vaidade
de rimar até mais não
que não haja confusão
è tudo o que lhes peço
não julguem este verso
está igual ao dia...
Olha a nuvem, quem diria
que se atreve a tapar o sol
esta contenda é paiol
dinamitado com garra
se não fosse triste a farra
seria opereta na praça
mas aí... perdia a graça.
É melhor arrumar as botas
já que as ideias são tortas
de paz e amor carece
verso que não enaltece
mas para ser curta e precisa
de quatro versos composta
deve a rima ter sentido.
Tudo o que tenho vivido
é bitola e é peão
roda em qualquer chão
olha mesmo sem ver
faço versos por fazer?
Talvez sim… ou talvez não…

Mas que grande confusão
começa a perder o sentido
olha… é tão fraco o gemido
que chega no vento suão
mesmo assim é de um irmão
que tal como eu é poeta
homem rude, calejado
no Alentejo gerado
das quadras fez sua sina
quando eu era pequenina
ouvia-o embevecida
dele tomei a medida
o fio-de-prumo a bitola
jamais darei esmola
em qualquer rima ensebada
este saber é enxada
da cultura popular
por isso vou me calar
que os versos respiram, estão vivos.
no vento são os carpidos
de um povo aventureiro
de cunho nobre e certeiro
escreve baladas com dor
nas mãos se esvai o suor!

Aqui vos deixo um pedido
em verso triste, fuinha
não deixem perder o sentido
da poesia popular
ajudem-na a ser rainha
por mais pobre que seja o vestido
No Alentejo... é sonhar!





quarta-feira, 7 de junho de 2017

Pintelhos

Palavra de nove letras
Uma só interpretação
Olha o estado da nação..
Catroga, atenção às tretas.

Eu fico abismada
Palavreado ou senão
Abriu a boca, saiu cagada
E nem lhe vi aflição!

Só pode ser o mofo.
nas ideias regressivas.
Diga-me lá se faz favor
Já se viu na fotografia
Confesso que até faz azia
Esse palavreado balofo.

Que queira ser ministro
Não lhe posso levar a mal
Agora... que faça arraial
À custa dos portugueses
Olhe: não somos fregueses
Do botequim da esquina
Eu acho que a naftalina
Lhe deu a volta ao juízo.

Atenção senhor Catroga
Ao abrir da sua boca
Ainda lhe entra um guizo
E se afunda na piroga.

Vai ao fundo, vai ao fundo
Lá diz a velha cantiga
Senhor Catroga fique mudo
Ou acorda a lombriga

Reparei que o atazana
A cada novo discurso
Pintelhos ou pouco siso
Olhe que a retórica o esgana...

terça-feira, 6 de junho de 2017

Horizonte…

Se eu não fosse ousada na expectativa…
De um dia com muito mais do que sol.
Se eu não procurasse a alternativa…
Quem sabe do receio teceria lençol.

Se eu não fosse um tanto aflitiva…!
E não teimasse em me manter no rol…
Dos que vão além da simples directiva.
Eu sei… não olharia de revés o paiol!

O mundo está muito além do horizonte.
Os medos podem ser traves ou nuvem.
Podem se riachos insidiosos e sem açude.

Mas jamais serão o meu burel ou ponte.
Se até as pedras miudinhas a terra retém.
E as asas de um sonho são sempre a fonte.


quinta-feira, 1 de junho de 2017

Uma semente térrea…

No cume do mundo uma semente térrea,
uma cascata divina, um roseiral em flor.
Beijada p`la brisa com extrema ousadia.
Se encobrem as penas, se esfuma a dor!

Sempre que a fantasia se atreve e baila;
uma criança sorri. Então: onde está a cor
no seu olhar aguado? Choro ou agonia.
Farrapo torturado onde escasseia o amor.

Dia um, ou dia primeiro na compaixão?
Só mais um dia... Pintalgado e diferente!
É este Junho que pernoita sem sol ou pão.

Não… para quê chorar? O corpo dormente
não sente. Não… descura, tresloucado coração…!
Finge: Aquela criança não é triste ou indigente.





Palavras ao Vento Suão, Antónia Ruivo