terça-feira, 13 de novembro de 2012

Atrás dos dias




Vivemos uma reviravolta temida
Difícil que é sarar a chaga
Espreitam na velha encosta
Lobos famintos de olhar em brasa.

Ninguém te pode ajudar vontade é feita de força
Incalculáveis os destroços no peito e nos braços
O que partiu não retorna por mais que ergas ao alto
Em oração anuída pelo fracasso a mão nua
Firmeza que não vacila o mau tempo logo abala

Reviravolta nos sonhos em fragmentos dispersos
Nas praças e nos campos em dias de soalheira
Escuta ao longe o uivar dos lobos na clareira
Cabe-te a ti contornar erguer a vontade em brados

Pertence-te o corpo tiritando de frio
Quem te pode ajudar sem firmeza ou pretensão
Planta o solo infértil aguarda e as ervas florirão
Atrás dos dias remotos vigiam as águas claras de um rio.

 

                                                  



sábado, 10 de novembro de 2012

Diz-me quem sou



Se o meu querer tivesse a tonalidade das cores
Aninharia uma nesga de terra
Entre o azul do céu e alguns amores
Imprevisível seria a minha paleta
Perder-me-ia por campos em flor

Há qualquer coisa que me diz
Que agora podia morrer
Levava nos olhos uma flor de Liz
A solidão cruzada nos ventos
Levaria sem dúvida a minha raiz

Ai minha terra Alentejo alvor
Ai minha gente meu conto de fadas
Indomáveis os desígnios e a obra
Deste-me a mão num parto de dor
Deste-me a vida num tempo que sobra
Há distancia que o barro desmente

Ai Alentejo diz-me quem sou
Poderia contudo ser de outra maneira
Serei a força do vento que sossegou
Uma cantiga que de longe chegou
Ou a rama mortiça de uma azinheira

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

A poesia



O ápice não sabe de mim no meio da algazarra
Estou assim num impasse
Num gueto de terceiro mundo, inerte
Para logo me sentir empolgada

Olhando a minha cara acabei por sorrir
Para o espelho embaciado´
Correram as horas sem ouvir o som
Do relógio carcomido pelo passar
Das ideias apressadas esperando cativar
Almas cansadas, iguais no sentir
Sombras vadias e versos a advir

Também me ocorreu um sabor a tédio
Na nuca de uma criança
Que sonhando acredita na poesia
Desinteressadamente folheia um livro
Esperando encontrar a fasquia

Neste inverno em que a cal se solta
Pelas paredes rachadas
Inventam os poetas estrofes em letra torta
Esperam os leitores flechas
Que rasguem a memória e o nevoeiro
Implementado pelo desaire em solo pioneiro

Finalmente a luz do dia
Trás consigo a penúria
 É tempo da poesia
Ser pilar contra a incúria.

domingo, 4 de novembro de 2012

Morreu a mulher

Atravessei o rio fecundo da criatividade

Atolei contudo no pantanal da inercia
Deram-me os sonhos a vaidade
Acabei atracada á evidência

Que difícil é esquecer-me
Do que que não fui nesta vida

Se morresse neste dia as folhas choravam
Os montes erguiam os braços ao céu e clamavam
Morreu a mulher
Ficou contudo o sangue vermelho por entre o barro
Levou consigo o olhar altivo, orgulho até
 Alarde vestido no fundo da alma apavorada




Portugal, o que foste


Que anunciam os momentos,

As sombras que deambulam pelas vielas
Os nichos recomidos das almas
As vozes
Roucas, onde a garganta se afunda e o ai se solta
Pobreza enraivecida escondendo vergonha
Na fome que a barriga contrai
Ai.

Aqui onde se capam vontades, uma nação sucumbe
No desperdício de vidas e de saber previdente
O jovem atiça revolta
Contra uma sorte madrasta, a batina repousa no escuro
Envolta na memória vadia, o que fomos
O eco da coragem ressurge no dia
Portugal o que foste, o que és
Uma esperança vazia.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

A morte



A última lembrança
Entre a vida e a morte
É a semelhança transitória
De um raio de luar a norte
A neblina do olhar

Na memória quero ter
A tua voz carinhosa
O cheiro da erva
Um campo verde
Eu, criança a brincar

Depende da vida que se teve
O último adeus
No contorno dos lábios
Um beijo
Esventrando a ultima vontade

À beira da cova a sombra
Da saudade inacabada
Transportará memória imaculada.

Palavras ao Vento Suão, Antónia Ruivo