domingo, 7 de outubro de 2012

Certeza




Quando a nostalgia invade
Apreendo o sonho
Entre o espaço que vai da saudade
Por entre a esperança
Nunca é tarde nem cedo
Transportas a proporção exacta
Entre a minha firmeza e a tua vontade




sábado, 6 de outubro de 2012

Noite acordada



Na claridade do dia vejo nublado
É de noite que a ideia cativa
Voltas na cama penso e repenso
Voltas da vida noite esquisita

Perco o sentido das coisas sempre que acordo
Vivo na vida ao contrário não me sai da cabeça
Uma meada de sonhos reduzidos a escombro
Uma pedrada no charco p´ra que aconteça
Esbanjo saudades e desapego estranha mortalha
A lua já vai tão alta causa-me assombro
Tenho saudades por estranho que pareça
Quero-as ao longe por cima do ombro

Na claridade do dia vejo nublado
A negação é por fim dissipada
Aceito então o meu fado
Horas e horas na noite acordada.



terça-feira, 2 de outubro de 2012

Espuma




Nas mãos que se agitam, contorce-se medo
De errar, perder, pelo poder da mente cogita
O ganhar sobrepondo degredo

Cada vez mais sozinha a sombra
Descai sobre si num gesto derradeiro
Não sente nem sabe o paradeiro da sensatez
Cada vez mais sozinha a vontade de ter
Não sabe que o pensamento é soalheiro
Voa liberto, desconhece o ser
Nas mãos que se agitam somente a raiva
É espuma que negro sabão desbota.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Razão



Não consigo divagar comigo. Para mim não consigo olhar
De manhã o sol encandeia, à tarde a névoa distrai
De noite a mais fina teia atrofia o meu andar

Dois passos atrás às vezes num só pé a equilibrar
Dou por mim estou no trapézio da garganta se solta um ai
Disfarço o meu mal-estar mas assim não vou encontrar

Mortiça luz na candeia Portugal a naufragar
Submergindo assim se premeia
Imperícia no aforralhar.

E depois, desterrada e fria
A razão de uma qualquer sentença
Nem sempre assim se permeia
O resfriado numa indiferença.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Décimas, Com Troika ou sem troica




(Mote)

Junta tua mão à minha
Em elos redobrados
Embora no fim da linha
Não seremos derrotados

A fúnebre sinfonia
Ouve-se de antemão
Revolta, insatisfação
Numa pesada agonia
A terra bem me dizia
Não vás por esse lado
Mas lá diz o ditado
Ao burro a sua pala
E nesta minha fala
Junta tua mão à minha

Embora os passos pesados
Te pesem com aflição
E por entre trambolhão
Ecoem gritos cansados
Não fiquemos enterrados
Num deixa andar pesaroso
Sei que é doloroso
Sair da casca por vezes
Não nos queremos malteses
Em elos redobrados
                      
Não será coisa minha
Muito menos é paixão
Só dou eco ao filão
Arrancar erva daninha
De que vale ter vidinha
Se liberdade eu quero
E o melhor sempre espero
Para este velho país
Pão na boca sempre quis
Embora no fim da linha

Por isso mesmo cansados
De políticos de merda
Sair à rua em estratega
De braços bem levantados
Só de esperança armados
Com troika ou sem troica
Coelho só na panela
Cobaias é que não somos
Nós o povo é que mandamos
Não seremos derrotados.

sábado, 1 de setembro de 2012

Nina negra

O sol queima
Sua pele morena

Maria veste
Saia amarela
Princesa do povo
Uma aguarela
Nina maresia
Aos olhos meus
De pés descalços
Maria cresce
Por entre percalços
Nina sofre
O choro esconde
Maria negra
Nos ecos da terra
Ouve-se ao longe
O som da chibata
Selva africana
Pátria negra
Essa grandeza
A tua beleza.

Palavras ao Vento Suão, Antónia Ruivo