sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Retorno



Das profundezas do mar a vida
Brotou em cascata na serra
Desenlace de uma nuvem branca
Submergiu a esperança na terra

As casas brancas caiadas
São berço de algum amor
Contudo as ruínas choram
Desamparo no tecto sem cor
Por entre janelas imploram
À vida volta de novo
Porquê o espaço vazio
É cinza da alma de um povo

Na terra batida se aflora
Sinais de gente voltando
Nas encostas da serra a aurora
Transporta o sonho até quando
 
A força de um povo que é nobre
Que verga mas nunca desiste
Em cascata a garra que move
Despojos de uma pátria triste.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Fotografia



Traz a chuva o barulho
Que esfria a alma
Contudo serás tu a flecha
Que o transe anuncia
Não sei do que era capaz
Por um pingo de chuva
Solto no teu olhar

A balança da justiça (sem) pêndulo
Deflagra o abismo
Insonháveis os sonhos ao juiz
Relâmpago fatal engana
A quem o diz

Apercebi novamente
A chuva lá fora
Aos meus ouvidos a sua voz
Traz com ela a verdade

Dolorosa fotografia
De quem nada é, nada sabe
Para além da vidraça num dia de chuva.

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Sonha Poeta



Brinca criança brinca
Inventa borboletas azuis
Na falta de amor vagueia
Pelo portal da exaltação.

Sonha poeta sonha
Brinca com as palavras
Nos dias do sonho vagueia
Em triunfo pela paixão

O sonho é esculpido na rocha da determinação
Cabe aos homens empunhar o escopo
Vagueia sim com imaginação, implacável e ditoso
O poder de ser através da criança que nunca morre
O domínio do impulso sem contradição
Com os tempos que grasnam fome
 
Brinca criança, poeta de agora
Afasta a solidão, com precisão
Nas frases despidas noite fora
Leva p`la mão o teu irmão

Brinca poeta
Nos traços dissipados
Contudo é tua a escolha
Semeia versos que sejam dardos
Ou simplesmente aos tempos mente
E a semente não eclodirá, é tua a escolha.

Rumo à liberdade



O meu país espera. Enlaçados à dúvida desesperam os vivos.
Deixam tudo e partem além-fronteiras
Os mortos revoltosos abatem, foram tantos em fileiras
Sucumbiram os vivos ao capital, não há início sem termo
 Crucial a crise e a fome em Portugal.

Deparo-me com a incógnita, mais uma greve geral
Afasta-se o tempo proveitoso e eles não entendem
Por mais que seja odioso, alternativas onde estão.
Digam os vivos que sou cruel, os mortos que sou utópica
Digam as evidências que me acenam nos rostos cadavéricos
Nas máscaras de cera dos políticos, alternativas não há.
Apontem dirigentes a guilhotina à agonia. Alternativas não há.

Precisa nascer uma nova geração, abre as entranhas mulher
Grita ao parir escolha, lega aos filhos os passos para a claridade
 Clamem os homens no coito da esperança, gerem herdeiros sem amarras
Então, descansem os mortos e os vivos, Portugal fugirá das garras
Rumo à liberdade.


terça-feira, 13 de novembro de 2012

Atrás dos dias




Vivemos uma reviravolta temida
Difícil que é sarar a chaga
Espreitam na velha encosta
Lobos famintos de olhar em brasa.

Ninguém te pode ajudar vontade é feita de força
Incalculáveis os destroços no peito e nos braços
O que partiu não retorna por mais que ergas ao alto
Em oração anuída pelo fracasso a mão nua
Firmeza que não vacila o mau tempo logo abala

Reviravolta nos sonhos em fragmentos dispersos
Nas praças e nos campos em dias de soalheira
Escuta ao longe o uivar dos lobos na clareira
Cabe-te a ti contornar erguer a vontade em brados

Pertence-te o corpo tiritando de frio
Quem te pode ajudar sem firmeza ou pretensão
Planta o solo infértil aguarda e as ervas florirão
Atrás dos dias remotos vigiam as águas claras de um rio.

 

                                                  



sábado, 10 de novembro de 2012

Diz-me quem sou



Se o meu querer tivesse a tonalidade das cores
Aninharia uma nesga de terra
Entre o azul do céu e alguns amores
Imprevisível seria a minha paleta
Perder-me-ia por campos em flor

Há qualquer coisa que me diz
Que agora podia morrer
Levava nos olhos uma flor de Liz
A solidão cruzada nos ventos
Levaria sem dúvida a minha raiz

Ai minha terra Alentejo alvor
Ai minha gente meu conto de fadas
Indomáveis os desígnios e a obra
Deste-me a mão num parto de dor
Deste-me a vida num tempo que sobra
Há distancia que o barro desmente

Ai Alentejo diz-me quem sou
Poderia contudo ser de outra maneira
Serei a força do vento que sossegou
Uma cantiga que de longe chegou
Ou a rama mortiça de uma azinheira

Silencio…!

Reina, invisível… Nem as paredes sabem  a cor. Ou o cheiro do seu eterno bafo. São tantas as nuances que não cabem na casa desventra...