terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Comentadora de bancada. (Crónica)

Passo muito tempo comigo a sós, muito desse tempo é gasto com a poesia, mas de vez em quando há uma frase, situação, ou estado de alma que promovem um recolhimento em torno da mulher que sou enquanto poeta, e sobretudo enquanto cidadã de um país envolto no desgoverno social. Todos sabemos onde pairam os culpados desse desgoverno, melhor seria e melhor viveríamos se assim não fosse.
Com o passar dos anos e com um percurso de vida que me levou do berço rural para o reboliço de Lisboa durante duas décadas, sei que aqui há meia dúzia de anos atrás ainda estava convencida que sozinha conseguia mudar o mundo, a meu bel-prazer, e o pior de tudo é que às vezes achava que se determinada coisa fosse boa para mim por acréscimo seria boa para todos.
Quero chegar com a conversa ao dia em que decidi mudar o mundo numa pequena vila do concelho de Montemor-o-Novo, e candidatei-me à junta de Freguesia de Santiago do Escoural como independente nas listas do PS. Foi na lista do PS como poderia ter sido na de outra força politica qualquer, tinha é que ser da oposição. Convém dizer que embora estivesse convencida que tinha capacidade para mudar o mundo, sabia perfeitamente que ser politico neste país algumas vezes é somente achar que ser diferente, ter ideias diferentes, trabalhar de forma diferente, basta que a árvore ao ser plantada fique dois ou três milímetros, ou mais para a esquerda, ou mais para a direita, e que assim o trabalho executado prima por essa mesma diferença. Há muitos anos vesti uma cor política mas também há muito tempo que optei por olhar de fora os partidos.
Não ganhei a eleição e vi-me na cadeira da oposição numa pequena junta de freguesia, no meio rural alentejano, eu, a cidadã que achava que mudar o mundo era tão fácil, até ao momento em que me defrontei com a realidade dos números e comecei assim a descer do meu patamar elevado, dei por mim a olhar com outros olhos a luta de quem está à frente das instituições no meios rurais, onde os orçamentos e as verbas disponibilizadas são digamos, dadas por cabeça, eu explico, quanto maior o número populacional, maior as verbas que chegam de Lisboa. Durante quatro anos fiz oposição, muitas vezes votei contra, com o que achava estar mal, mas muitas mais vezes votei a favor com respeito pelo trabalho desenvolvido em prol da população, à custa de muitas horas depois de um dia passado no seu local de trabalho, o executivo da junta trabalhava o melhor que sabia para gerir os fracos recursos que eram de todos nós. Também aconteceu meterem os pés pelas mãos na caça ao voto durante esses quatro anos, para isso serve a oposição, com respeito e bom senso entre ambas as partes, porque se a roda virar de rumo também ela, oposição, entrará pelo escaparate da caça ao voto, não tenhamos ilusões.
Não sei muito bem porque me lembrei disto agora, talvez seja porque estou cansada e como eu a maioria da nossa população, de ver políticos, uns de trazer por casa, como eu, outros a nível nacional, atirarem para a praça pública promessas impossíveis de cumprir perante a realidade financeira de Portugal. E o pior de tudo, de ver a roda-viva em que algumas pessoas entram com a demagogia eleitoral, ao vestir a camisola desta ou daquela promessa politica.
Como estou cansada decidi hoje ser também eu, comentadora de bancada, e faço desta crónica à semelhança do que fiz em anos anteriores o meu apelo de Natal. Desta vez um apelo mais generalista, todos vós que me lêem com alguma regularidade, em poesia ou em prosa, sabem que em quase tudo o que escrevo sou movida por um olhar crítico em relação ao meio, não me assumiria poeta se assim não fosse.
Que se deixem de lado guerras e guerrinhas, que se unam as vontades, que haja respeito pelas opiniões contrárias, mas sobretudo que se saibam unir esforços em prol das gerações futuras.
Só assim Portugal deixará se estar na cauda da Europa, só assim se começará a ter vergonha ou orgulho novamente.

Feliz Natal, porque mais perto da quadra não terei tempo para crónicas.