domingo, 18 de dezembro de 2016

O meu Pinheiro Verde… Conto de Natal.

Acordara de ânimo, leve, finalmente sentia que a alma levitava através da esperança, até conseguiu sorrir ao pôr o pé fora da cama! Coisa que até esquecera… foi há muito tempo que desaprendera a sorrir nesta quadra.
Sente-se velho! É um velho escriba, de palavras tantas vezes ocas. Nas mãos que já se apresentam, enrugadas, pende uma tosca caneta que tem vindo a transportar para o papel o negro do mundo. Nos ombros, o pesado fardo delineou a curvatura das costas e no olhar, já alberga os lagos gelados do norte. No coração, que trancou faz muito tempo, conseguiu ainda assim manter acesa: uma frágil e sonhadora luz. Que hoje despontou!
Todos os anos a mesma coisa… assim que Dezembro se avizinha senta-se numa manhã com o intuito de escrever um Conto de Natal. Manda a tradição que os contos de Natal; sejam leves e bonitos, manda a tradição que as emoções em Dezembro se mantenham ao rubro. Ao longo dos anos, ele tem conseguido contornar essa ideia preconcebida, a de que, Dezembro é complacente. Não podem os homens desviar a atenção das luzes natalícias. Em Dezembro as luzes querem-se brilhantes e luzentes, sobretudo devem pender de um pinheiro de plástico rodeado de presentes! Este Natal não iria lutar contra o brilho das luzes.
Não percebe… Até os pinheiros passaram a ser de plástico, e deixaram de ser verdes! O verde era a cor da esperança, e nada melhor do que um pinheiro verde para retratar essa esperança. Hoje, até os pinheiros são brancos, se repararmos bem: são da cor dos lagos gelados do norte! E ele teme que um dia destes o musgo do presépio também passe a ser branco, porque de plástico… já é!
Por isso mesmo, os seus contos de Natal tornaram-se ainda mais frios… Sente uma enorme incompatibilidade com os pinheiros brancos. Sabe que essa discordância afasta as pessoas dos seus parágrafos; no Natal. Deixá-lo; que a leitura torne ao rumo em Janeiro. Ou não fosse Janeiro o mês destinado aos parcos recursos…
Este ano, havia decidido não escrever Contos de Natal. De nada serve estragar o espirito natalício ao leitor. Sentia-se tão cansado… durante um ano inteiro ia se apercebendo que todos guardam as boas intenções para Dezembro! Até ele: Enquanto isso, guardava também as intenções para escrever Contos de Natal que ninguém queria ler em Dezembro. Paradoxo; sem pés nem cabeça!
Por mais estranho que pareça, habitou-se à ideia de que este ano se fingiria de morto, enquanto andassem entretidos com o Natal. Porém, a esperança por vezes faz das suas, quando menos se espera empurra a porta. Por sinal chega a ser malcriada, entra de rompante sem sequer bater!
Foi o que lhe aconteceu, durante a noite passada! Enquanto dormia teve um sonho…
Viu-se criança, de andrajos vestido! Muito embora sempre lhe tenham vestido, trajes de veludo. Nas solas dos pés sem sapatos, tinha desenhado um pinheiro despido de agulhas, tal a força do pó com que estavam cobertos os seus pequenos pés! Nos cabelos, fios e manchas brancas anunciavam que a frieza dos lagos do norte desabara, na sua cabeça. Não percebeu muito bem o que lhe havia acontecido… os seus cabelos eram pretos e agora apresentavam-se brancos! O pior foi a sensação de peso nos ombros! Era tão pequenino, nem sequer sabia dizer quantos anos tinha, e aquele peso que lhe curvava as costas, já o deixava perplexo e amedrontado…
A certa altura: Em pânico, perante a fragilidade que tão estranho sonho lhe trouxera, esteve prestes a desfazer-se em lágrimas. Mas nada aconteceu… não verteu uma única lágrima! Quando… aos seus ouvidos um trovão lhe revelou a penosa realidade… lá fora… o que restava das casas caía em chamas de cinzas, enfeitadas com o que restava dos seus sonhos de criança. Caiam sobre a sua cabeça, deixando-a ainda mais branca!
O pior aconteceu… o pinheiro que desenhara nos pés, desaparecera! No seu lugar nasceu uma estrada de espinhos… Haviam-se partido as janelas da alma e a guerra levara a melhor… Roubara-lhe o pinheiro que de verde passou a branco, de branco passou a ser somente uma árvore morta à qual se tinha vindo a habituar, mas agora… perante o peso dos espinhos a dor roubara-lhe até as lágrimas.
Por essa altura acordou…
Depois de se recompor do terrível pesadelo, saltou da cama e sorriu… afinal, ele, e todos os que conhecia, tinham paz à sua volta, tudo não passara de um tenebroso sonho. Mas… como sabe que há no mundo muitos a chorar de fome e de dor, e porque é Natal e Jesus vai nascer para salvar os que sofrem, vindo a morrer mais tarde. Tal como a criança do estranho sonho havia morrido… Decidiu que afinal...
 Este ano, volta a escrever um Conto de Natal, o no seu Conto de Natal desenhará em palavras cruas o retrato dos que morrem ao sabor de uma bala perdida. Decidiu também que o seu Pinheiro de Natal voltará a ser Verde, muito embora continue a ser de plástico. Sinal de que por vezes até os sonhos são de plástico! Para que voltem a ser verdadeiros não é necessário ao pinheiro ter prendas, que o dinheiro possa comprar. É necessária esperança num mundo melhor.

Bom Natal para quem chegou ao fim deste conto.

Antónia Ruivo, 18 de Dezembro 2016.


Sem comentários:

Enviar um comentário

Palavras ao Vento Suão, Antónia Ruivo