quarta-feira, 22 de outubro de 2014

A voz da consciência (Conto)…

- Preciso fazer alguma coisa para não enlouquecer. Olha a rua através dos vidros entreabertos, e repara numa cadeira de rodas que desliza vagarosa pelo passeio fronteiriço. O seu olhar podia prender-se no homem de meia-idade, sem pernas, que encontrou na cadeira o seu meio de locomoção. Não, jamais repararia no homem, afinal toda a sua existência foi comandada pelo ´´ter`` sempre mais e mais, nem que fosse o esqueleto que agora a atormenta!
  - Que queres tu, logo tu que encontrou na luxuria o meio de vida. A sua voz soou tranquila, uma tranquilidade aparente, o seu íntimo fervilhava de asco, digo bem asco, apesar de ser seu amigo sempre lhe criticou os devaneios, como se chamar devaneios a verdadeiras aberrações que normalmente colocavam a vida dela e daqueles que a rodeavam em causa, fosse normal, mas também, como se a normalidade fizesse sentido ao olhar o seu rosto enrugado.
  - Os retalhos da minha vida assemelham-se a marionetas, dançam tresloucada mente no meu passado. Por acaso isso é pecado? 
Ou é impressão, ou ele juraria que está prestes a chorar. Conhece-a desde criança e já nessa idade era difícil algo ou alguém arrematar-lhe uma lágrima.
  - Manipulaste tudo e todos em redor, foi assim uma vida inteira, recordo como se fosse hoje o dia em que encenaste a tua morte, tinhas quando muito vinte anos, nunca cheguei a saber onde foste buscar a morta.
  - Qual morta, mas quem é que morreu?
  - Esquece, afinal de que serve remoer recordações, e as que tenho contigo são os meus pecados. Mas podes chorar, vamos chora verás que não dói, ou melhor, quando se chora só a alma dói. Vira-lhe as costas há setenta e cinco anos que a olha de frente, mas está cansado, tão cansado que só lhe apetece dormir.
Ensaia a retirada mas por um breve instante fica indeciso, qual o caminho a escolher. Se subir os degraus tudo será fácil, mas a facilidade sempre foi o jogo dela, contudo se retorcer e sair pelos fundos, sabe que daqui em diante nada será igual, olha-a de soslaio. Pressentindo a sua indecisão ela ri a bandeiras despregadas, e a sua voz deixa transparecer o desprezo por tudo aquilo que lhe começa a ser sagrado.
 - Sempre foste um frouxo e sempre me deitastes as culpas. E como te disse preciso fazer alguma coisa para não enlouquecer. Olha novamente para a cadeira de rodas e finalmente repara no homem de meia-idade.
 - Chega aqui. Como que movido por um telecomando, ele aproxima-se da janela.
 - Reconhece-lo?
  -Sim, quando era novo tinha imensos sonhos.
  - Não me digas que a culpada fui eu.
  Agora é ele que começa a chorar, enquanto ela continua a rir e vai falando.
 - Soube-te bem as mordomias, a vassalagem com que te olhavam e obedeciam, acima de tudo soube-te bem o dinheiro. Ah o bendito dinheiro, também te soube bem sempre que mentias por mim, sempre que olhavas o mundo de um patamar mais elevado. Olha para ele não passa de um pobre coitado.
 - Cala-te para sempre. Grita e dá três passos atras saindo pela porta dos fundos.
É de manhã quando abre os olhos, não, a claridade vem da lâmpada que pende sobre a sua cabeça, atarantado olha em redor, tudo lhe é estranho, estranha sobretudo a luz fria que ainda o vai cegar.
 - Está a acordar. Novamente uma voz de mulher. – Senhor Alberto, está a ouvir?
Abre e fecha a boca, mas nada de prenunciar palavra, como é possível se ainda há pouco falava a bandeiras despregadas.
 - Bem-vindo de volta senhor Alberto, sabe que dia é hoje, hoje é o primeiro dia do resto da sua vida. Assim o cumprimenta uma mulher simpática de bata branca.
Passaram cinco anos desde o terrível acidente que o atirou para uma cadeira de rodas, e hoje no dia em que faz cinquenta anos tem uma enorme esperança no futuro, a reviravolta que a sua vida sofreu fez-lhe ver que muito mais importante que estatuto, é ser-se feliz e contribuir para que os outros o sejam também. Com o acidente que quase o atirou para debaixo da terra soterrou hábitos obsoletos, passou a dar menos importância a bens materiais para se debruçar sobre os bens da alma. Finalmente pode dizer que é um homem realizado, e o caricato está na estranha conversa que teve com a sua consciência há cinco anos atrás. Dizem que esteve em morte cerebral, uma grande peta é o que é, como pode ter morrido se lembra tim-tim por tim-tim toda a conversa, e da escada que esteve prestes a subir. Só lamenta não poder falar dessa conversa com ninguém ou ainda corre o risco de lhe chamarem doido. Se quando ofereceu o casarão onde morava para fazerem um lar para os Sem Abrigo, e foi morar no pequeno apartamento de solteiro foi o que foi, imagina se tivesse contado a alguém que falara com a sua consciência enquanto esteve morto, e ainda por cima já tinha setenta e cinco anos!

Máscara...

Sempre que adivinho a solidão alheia… É como se o espelho estivesse embaciado. E o meu rosto sugado por uma teia. Sempre que ...